Soundtrack

A dupla 300 ML, que realizou o curta-metragem O Código Tarantino, estreia na direção do longa-metragem Soundtrack, uma superprodução filmada em estúdio no Rio de Janeiro e falada em inglês. Com a participação de Seu Jorge como coadjuvante, o filme tem Selton Mello no papel de um artista que vai para o Polo Norte realizar uma série de fotografias de si mesmo.

A ambientação gélida lembra Os Oito Odiados, de Quentin Tarantino. Nos dois filmes, trata-se de um grupo de pessoas confinadas em uma casa no meio do gelo, e a dupla dos diretores também aposta nos diálogos, às vezes irreverentes (Seu Jorge arranca uma ou outra risada com seus palavrões em português), para cativar o público. As semelhanças param por aí: Soundtrack é um filme sobre crise existencial e profissional. Cris (Mello) saiu do Brasil para tirar selfies em um fundo branco minimalista, como afirma um dos personagens, este incapaz de compreender a importância do processo dessa jornada – por que Cris não tirou as fotos na frente de uma parede branca da casa dele, pergunta. Seria algo como criticar a personagem de Comer, Rezar e Amar por viajar para fazer coisas que poderia fazer na própria casa, por exemplo. Mas a dúvida dos habitantes daqueles contêineres no meio do gelo também acaba refletindo no artista, que procura registrar as suas sensações na paisagem a partir da música que está ouvindo, dando uma trilha sonora cinematográfica a imagens estáticas.

Um retrato de crise e de relações humanas no meio do gelo, Soundtrack desafia o espectador. Um artista fracassado, introspectivo, no meio de outros homens pouco interessantes, que foram para um extremo do planeta em busca talvez de isolamento, mas que acabaram isolados juntos com desconhecidos. Aos poucos o público vai conhecendo melhor esses personagens, mas o filme parece demorar para engatar, pegando um tempo mais lento, forçando o público a tentar compreender aqueles personagens pelos quais não se constrói muita empatia. O processo é lento e doloroso, o que torna Soundtrack uma experiência difícil de se acompanhar. O clímax, porém, deixa o filme belo, simples e poético.

 

| Gabriel Fabri