Planeta dos Macacos: A Guerra

Em coletiva de imprensa em São Paulo, o ator Andy Serkis, que através da tecnologia de captura de movimento dá vida ao macaco Caesar, disse que, na essência dos filmes da franquia que chega ao seu terceiro episódio desde o reboot de 2011, está o tema da empatia. Pelo menos se tratando desse último episódio, não há melhor definição para Planeta dos Macacos: A Guerra. Focado, dessa vez, ainda mais nos macacos, o diretor Matt Reeves traz o longa-metragem mais humano da franquia.

Em meio à guerra entre macacos e humanos, Caesar vê a sua aldeia ser invadida novamente pelos humanos, dessa vez com consequências trágicas para o líder. Ele resolve, portanto, partir em busca de vingança pessoal, com a ajuda de outros três animais. No caminho, Caesar mata um humano que tenta assassiná-los e o grupo acaba adotando uma garotinha muda (Amiah Miller), filha do falecido, para a jornada.

O longa-metragem, apesar de um começo um tanto quanto insosso, surpreende o público por focar menos na ação, dando mais profundidade ao drama dos personagens. Focando nos macacos, o filme ensaia um maniqueísmo entre humanos e animais, mas logo o dissolve – o coronel (interpretado por Woody Harrelson), que seria o vilão do filme, ganha uma história consistente por trás de seus atos brutais, o que o torna bastante compreensível, apesar de ainda indefensável. Não há aqui a maldade pela maldade, e isso engrandece o filme, que, por outro lado, coloca dúvidas quanto ao caráter de seu herói, uma vez que Caesar agora se move também por vingança e ressentimento.

Não é um filme fácil de digerir, um mero entretenimento, e imagens de macacos em lugares já ocupados por humanos (crucificação, em referência a Jesus, e campos de concentração e trabalho forçado, clara alusão ao nazismo), mais questões políticas e existenciais, tornam a obra densa. Se Reeves, ao colocar pouca emoção no começo do filme (onde há mais ação), falha ou não, ele logo compensa isso com dois breves momentos de delicadeza, que ficarão na memória de quem assistir ao filme. Curiosamente, são dois momentos estrelados por Miller, e sua personagem também dá consistência às motivações do vilão, uma vez que sua mudez está relacionada com o vírus da gripe símia.

Planeta dos Macacos: A Guerra tem um clímax de ação imprevisível, um final que conecta com a mitologia dos filmes antigos, um alívio cômico com um macaco de zoológico. Nada disso tira a densidade do filme, carregado de tristeza. A brutalidade da guerra não é amenizada aqui através de uma jornada de superação de um herói. A sensação é de que ambos os lados estão nesse confronto e não sabem o porquê – como todas as guerras, que ninguém sabe por que diabos lutam nela.

Por Gabriel Fabri