Lady Macbeth

Publicado em 1895, o romance russo “Lady Macbeth do Distrito de Mtsensk”, de Nikolai Leskov, foi imortalizado ao ser adaptado para os palcos em 1934. Em uma ópera de quatro atos do compositor russo Dmitri Shostakovich, o texto serviu de pretexto para uma das obras líricas mais ousadas na história da música clássica – e não é difícil imaginar o por quê. Levada para os cinemas em 1961 por Andrzej Wajda, a história ganha uma nova adaptação em Lady Macbeth, de William Oldroyd.

A trama parte da mesma premissa: Katherine (Florence Pugh) teve o casamento arranjado e o seu marido, Boris (Christopher Fairbank), é incapaz de satisfazê-la, tanto amorosa quanto sexualmente. Quando o cônjuge e o sogro viajam, Katherine se envolve com um de seus criados. O retorno dos dois patriarcas, entretanto,  provoca uma série de tragédias que escapam da mão dos dois amantes.

Se a ópera de Shostakovich era a frente de seu tempo, o filme de Oldroyd não só não chega perto da genialidade e ousadia da adaptação teatral russa (encenada no Theatro Municipal ano passado, em São Paulo), quanto retrocede, perdendo a essência da personagem principal, que no filme move-se por puro egoísmo. O exemplo mais nítido disso é o final, diferente do livro e da ópera, que pinta a personagem como uma megera, esquecendo os seus traços de vítima da sociedade patriarcal e de um casamento arranjado. A moral do filme é colocada no amante – e isso é possível pois o momento mais perturbador da história, a cena de estupro coletivo, foi surripiada da trama, talvez pela vontade de tornar a história mais politicamente correta ou mais palatável para a audiência.

Embora capte bem a atmosfera de repressão sexual em que está envolvida a personagem, o longa-metragem opta por não defender a sua protagonista, condenando-a por seus desejos. Pintada apenas como vítima e como vilã, com ênfase nessa segunda parte, esquece-se da faceta mais dúbia, mais intrigante da personagem, o fato de que ela também é uma heroína. Esquece-se disso por medo de ser polêmico. O resultado é fruto de nossos tempos: debaixo da ditadura de Stalin, Shostakovich produziu uma obra muito mais rica e moderna do que o filme de Oldroyd. A ousadia de uma cena como a sequência do estupro, que na ópera vinha acompanhada de uma música de uma alegria irônica e desconcertante, passa longe daqui.

Por Gabriel Fabri