Lino – Uma Aventura de Sete Vidas

O diretor Rafael Ribas (O Grilo Feliz e Os Insetos Gigantes) estudou as grandes animações de sucesso hollywoodianas para entender o apelo dessas produções não só com as crianças, mas com todo o tipo de público, agradando a todas as idades. Esse trabalho se deu por causa de seu projeto ambicioso, de fazer uma animação no Brasil que pudesse competir de frente com essas grandes produções, que facilmente chegam a custar até 100 vezes mais o valor de produção de Lino – Uma Aventura de Sete Vidas. O resultado é um filme de padrão internacional, com uma premissa criativa, mas cujo resultado é comprometido com alguns excessos.

Inspirado em um amigo de infância do diretor que teve uma experiência ruim como animador de festas, o personagem Lino (voz original de Selton Mello) é um animador de festas fracassado – aliás, toda a sua vida foi um azar atrás do outro. Ele veste uma fantasia que odeia, de um gato vermelho e amarelo. Desesperado, recorre às soluções milagrosas propostas por aqueles folhetos de porta de metrô. Encontra um mago charlatão, Don Leon, que lhe dá instruções erradas para um ritual de magia. O resultado: Lino se transformou na própria fantasia. Se isso não fosse problema o bastante, ele descobre que é procurado pela polícia por um roubo que não cometeu, e está em todos os jornais. O felino deve arrumar um jeito de voltar a ser humano antes de ser encontrado pela polícia.

Com enredo criativo e boas sacadas, Lino é um bom filme, e tinha potencial para agradar a todos os públicos. Entretanto, há um desequilíbrio de forças evidentes na obra, o que acaba tornando a animação infantil demais em alguns pontos. Explica-se: há três personagens idiotas na trama – um deles funciona. Don Leon, apesar de às vezes ser muito caricato, traz bons momentos cômicos para o filme, e faz um belo contraponto à seriedade e ao desespero do personagem principal, que chegou ao fundo do poço. O problema é que o mago charlatão, que tem um grande momento dançando Barbie Girl em uma tribo indígena (desmistificando a ideia de que os índios vivem à margem da sociedade), não é o único personagem estúpido em cena: há uma dupla de policiais que raramente conseguem trazer a comicidade que tanto forçam, causando o efeito contrário, certa irritação com um humor que deve agradar apenas a crianças pequenas.

Apesar desse exagero, com três personagens “bobões”, Lino é um filme de alto nível técnico e com enredo criativo. O personagem principal, mesmo mau humorado, cativa, com um ator talentoso por trás. E tem feitos como conseguir construir uma aventura sem ter um vilão caricato e sem graça, muito comum nas produções infantis – o vilão aqui mal aparece, é um assaltante comum que se aproveitou de um vizinho fracassado para usá-lo como bode expiatório para um roubo, e não um megalomaníaco bobão querendo fazer mal pelo mal e dominar o mundo.

Por Gabriel Fabri