Aos Teus Olhos (41ª Mostra)

As redes sociais viraram, com o passar dos anos, uma ferramenta poderosa de linchamento. A tecnologia amplificou o alcance do senso comum, de vozes preconceituosas e do moralismo conservador. São pautas que, por se pautarem em raciocínios simplórios, são de maior apelo e, logo, têm mais facilidade de mobilização. Imagine então o poder de destruição que essa ferramenta pode ter quando uma mãe acusa o professor de natação de seu filho de ser pedófilo.

Essa é a trama de Aos Teus Olhos, novo longa-metragem de Carolina Jabor (Boa Sorte). Em tempos em que uma performance no museu é capaz de mobilizar milhares de moralistas gritando “pedofilia”, em que as vozes da arte começam a ser ameaçadas de serem caladas, o filme é um exemplar corajoso e pertinente do papel da arte de nos incomodar e de provocar reflexões. Por que, apesar do público assumir o ponto de vista de Rubens (Daniel de Oliveira), o professor de natação acusado, na vida real o mais provável é que o espectador tomaria as dores da mãe: se é a palavra da criança contra a do nadador, então como não acatar a do garotinho indefeso?

Carolina conduz a história com maestria: simpatizamos de cara com o personagem principal, desconfiamos de súbito dos pais, e logo reprovamos o comportamento imprudente e inconsequente da mãe de divulgar o caso nas redes sociais. E se o que o menino disse não foi verdade e eles estão destruindo a vida de alguém? E se for verdade e o homem escapar ileso, beijando outras crianças (ele foi acusado de beijar um menino, na boca, no vestiário da natação) ou coisa pior?

Aos teus olhos mostra como é complicada uma investigação de abuso sexual. Geralmente, é a palavra da vítima versus a do acusado. Muitos casos como esse acontecem e ficam sem solução, quando a sociedade ainda não piora tudo culpando a vítima, no caso de um assédio a uma mulher, por exemplo. Mas o longa-metragem nos leva a tomar as dores do acusado, que acreditamos não ter cometido nada de errado. Mas a diretora é esperta e nunca mostra realmente o que aconteceu e nem mostra o que o menino disse para os pais, deixando em aberta a possibilidade de que o menino não tenha acusado o professor de assédio, e sim comentado sobre um beijo na bochecha, e a história tenha sido exagerada pela mãe.

Há indícios e suspeitas contra Rubens, mas que não são provas. Em dúbio, pro réu – um dos pilares do direito é o de que todos são inocentes até que se provem a culpa. Mas no tribunal do Facebook, não importa. O importante é que haja um culpado para ser malhado. As redes sociais são novidades, mas a história se repete: as bruxas de Salém também foram para a fogueira da mesma forma; a inquisição também fez suas vítimas assim. No jornalismo brasileiro, há o velho caso da Escola Base, em que crianças acusaram os seus professores de abuso e o jornalismo sensacionalista aproveitou-se para, só depois de anos, descobrir que era mentira. E uma situação parecida já foi tema do longa-metragem sueco A Caça, de Thomas Vintherberg, excelente por sinal.

Aos Teus Olhos é, em suma, daqueles filmes obrigatórios para se ver.

Por Gabriel Fabri

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