A Trama (41ª Mostra)

Qual é a linha que delimita, em uma obra de ficção, o que pensa o personagem e o seu autor? Vire e mexe nos deparamos com a questão de como separar a obra de seu criador, e muitas vezes vemos análises equivocadas de pessoas que tentam entender a mente de um diretor ou escritor através de seu trabalho: se o personagem é um assassino, o escritor tem que ter tido pelo menos o desejo de matar alguém para descrever com autenticidade? Se o protagonista é racista ou machista, ele reflete a mentalidade do autor?

Essas são questões debatidas pelos protagonistas de A Trama, novo filme de Laurent Cantent (Entre os Muros da escola) e o escolhido para o encerramento da 41ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. O filme acompanha o processo criativo da escrita de um romance coletivo em uma oficina com jovens que buscam reabilitação social, comandada pela autora de romances policiais Olivia (Marina Foïs). Logo, um dos estudantes, Antoine (Matthieu Lucci), começa a provocar discórdia no grupo, com comentários racistas e xenófobos.

Por meio desses encontros de escrita coletiva, Cantent explora as mais diversas tensões sociais, em especial o preconceito com outras etnias e religiões. O grupo representa uma pequena amostra da Europa atual, com temas pulsando como terrorismo e refugiados, causando todo tipo de ódio e preconceito. Existe o adolescente branco com tendências de extrema-direita, Antoine, que é em quem o filme irá focar. Mas está ali a mulher, o árabe, o negro, e todos vão ter que dialogar e escrever uma obra juntos.

Retratando a dificuldade do ser humanos de lidar com o que é diferente, sejam pessoas diferentes ou o próprio confronto de ideias, A Trama envolve o público ao criar esse microcosmo da Europa atual, permeado com a discussão para construir um romance do zero. Além do plano político e da criação artística, o filme também acerta ao focar no jovem mais problemático, que poderia ser o vilão do grupo, mas não é tratado dessa forma – é um adolescente solitário que Olivia tentará compreender, junto com o público.

Por Gabriel Fabri

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