O Mecanismo – Crítica

Após dirigir a série Narcos, sobre o traficante Pablo Escobar, o brasileiro José Padilha volta a encarar temas polêmicos ao dramatizar o início da operação Lava Jato, da Polícia Federal, em produção da Netflix. Baseado no livro “Lava Jato – O juiz Sergio Moro e os bastidores da operação que abalou o Brasil”, do jornalista Vladimir Netto, O Mecanismo é um entretenimento envolvente, mas que não tem o cuidado mínimo necessário ao retratar uma operação que mudou a história do Brasil, para o bem e para o mal.

Para efeitos didáticos e de roteiro, a série introduz um delegado aposentado após tentar investigar pessoas graúdas da capital em 2003 – no caso, o seu conhecido de infância, Roberto Ibrahim, alter-ego do doleiro Alberto Yousself. Selton Mello é Marco Ruffo, personagem que foi taxado com problemas psicológicos para cessar as suas investigações. Dez anos depois, ele irá auxiliar por fora a investigadora Verena (Caroline Abras), da Polícia Federal, que, ao investigar novamente Ibrahim, dá início à Operação Lava Jato, ação que revelou uma rede de crimes e acordos envolvendo políticos e empreiteiros e colocou pela primeira vez atrás das grades algumas das pessoas mais poderosas do país.

Com didatismo e narração de Selton Mello e Caroline Abras, a série consegue apresentar a operação e dar um bom panorama da complexa sujeira em Brasília. Com a experiência de filmes como Tropa de Elite e Robocop na bagagem, Padilha constrói habilmente o entretenimento, de modo que os oito episódios, embora carregados de informação, sejam envolventes para nenhum filme ou série policial de Hollywood botar defeito.

Entretanto, o entretenimento aqui não só é politicamente enviesado, como não se poderia esperar diferente, mas também é perigoso. Por que O Mecanismo é uma série de ficção. Entretanto, usa da liberdade desse estilo para fazer algumas distorções pontuais que não fazem o menor sentido de existir, a não ser confundir politicamente o espectador.

Apesar de afirmar que o mecanismo é sistêmico, atingindo a todos, a série coloca como as principais engrenagens desse esquema, desde o primeiro episódio, Lula e Dilma, claramente caracterizados como tais. É Lula quem torce pelo não desmembramento da Lava Jato (episódio 5), e não o Congresso todo, envolvido até o pescoço nas investigações. É ele quem se relaciona com o “Mago”, aquele ex-ministro que iria costurar o acordo entre a Procuradoria Geral da República e as empreiteiras (acordo que colocaria fim na Lava Jato). Por fim, na mais grosseira manipulação, como se Padilha estivesse gritando para o espectador, “não acredite na nossa série”, a Lula é atribuída a célebre frase do senador Romero Jucá sobre “acordo nacional” (aqui só com as empreiteiras, vai entender) e “estancar a sangria”.

Caracterizados de maneira negativa no primeiro episódio, com a narradora falando que “sempre desconfiou da Presidenta” de que aquele era um governo “que se dizia diferente”, Lula e Dilma ganham ares cínicos, com ele reclamando da quantidade de livros no cenário (“Casa de Coxinha”) e ela sendo grossa e falando em “estocar vento” (uma das frases da Dilma ridicularizadas pela oposição, aqui completamente fora do contexto). Até aí, tudo bem, é a opção de Padilha demonizar e ridicularizar quem quiser, sejam ex-presidentes ou o cortador de cana usado como um laranja, vestido com uma camisa de um partido vermelho. Mas insinuar que o Supremo Tribunal Federal é comprado por ter maioria nominada pelos governos petistas, depois de todos os acontecimentos dos últimos anos, ou insinuar que o escândalo do Banestado, envolvendo Yousself, tenha acontecido no governo petista é uma liberdade poética um tanto desonesta, e que não muda ou acrescenta nada à série em termos narrativos. É política pura e suja.

A oposição é personificada no alter-ego do senador Aécio Neves – na série, ele é apresentado como “um bandido também“. Embora apareça pouco, a série guarda para o personagem uma crítica dura, ao apresentá-lo como o candidato que representaria o derradeiro fim da Lava Jato. A imprensa, que apoia esse candidato em O Mecanismo e na vida real, também é implicada. E Dilma, apesar de já ter manifestado publicamente suas críticas a essa produção, que tem caráter nitidamente antipetista, poderia agradecer por ser creditada como a candidata que não ouviu nem Lula (claro!) e nem Temer, e se negou a colocar um dedo nas investigações. E o início do processo do impeachment aqui é caracterizado justamente pela reunião do então vice decorativo com o senador líder da oposição. Mas essa caracterização negativa da imprensa e da oposição é pontual, e bem mais sutil do que a dos governistas de então.

Por ser uma produção da Netflix, essas distorções incomodam, pois a série tem distribuição global e deve influenciar a visão de estrangeiros que não estão tão antenados na política brasileira para encontrar distorções tão óbvias como a fala de Jucá associada a Lula. Resta saber como será retratada a operação – que aqui é levemente criticada apenas por conta do mecanismo da delação premiada -, na segunda temporada da série, se houver. Como Padilha irá dramatizar os absurdos da Lava Jato, como a condução coercitiva de Lula e o vazamento do áudio de Dilma, além do golpe de 2016 e os rumos enviesados da operação? Cenas para os próximos capítulos.

Por Gabriel Fabri

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