Primavera em Casablanca – Crítica

Para contar histórias ambientadas durante a Primavera Árabe, levante de jovens que derrubou ditaduras no Oriente Médio em 2010, o diretor Nabil Ayouch construiu um caleidoscópio com vários problemas que aquelas sociedades orientais tinham (e ainda têm), sejam eles políticos ou culturais. O mais interessante, porém, é ver o dedinho da cultura ocidental ali, representado pelo clássico hollywoodiano Casablanca, que retratava um romance na cidade do Marrocos.

Não é a toa que a cidade, embora não seja a única retratada no filme, ganhe destaque no título brasileiro de Primavera em Casablanca (Razzia), que integra a programação do Festival Varilux de Cinema Francês 2018. O fascínio por Ingrid Bergman e Humphrey Bogart e seu estilo de vida está retratado por dois personagens mais velhos. Mas cada pedacinho da cultura ocidental que está retratado no longa-metragem é um motivo de esperança e melancolia para os personagens ali. O mundo digital permitiu a Primavera Árabe de acontecer, mas não só: ele também ampliou o contato dos povos com outras culturas. E como viver em uma sociedade atrasada, na qual as mulheres não podem ser quem elas querem, na qual meninas são prometidas em casamento com estranhos, com toda a liberdade conquistada no mundo ocidental entrando pelas frestas?

Essa é uma das reflexões mais importantes do filme de Ayouch, pois os outros motivos que levaram ao levante, assim como os atrasos culturais, são conhecidos: ditaduras, desemprego, pobreza, intolerância religiosa e a tradição de negar diretos às mulheres. Mas eles estão todos aí, retratados por meio dos diversos personagens em cena.

Da prostituta que se nega a transar com o judeu à menina que precisa perder a sua virgindade, num ato menos de vontade e mais de rebeldia quanto aos costumes locais, o longa-metragem consegue provocar e segurar a atenção do público pela variedade de temas retratados. Os personagens são pouco explorados, pois o que é importa é que cada um deles tem uma insatisfação e, de alguma maneira, sofre com algum tipo de violência, direta ou indiretamente. Violência está no cerne do filme, que não deixa escapar também a natureza violenta dos levantes.

Entretanto, a maior das violências, se é que é possível classificá-las, tem data de três décadas antes da tal Primavera em Casablanca. Não à toa, o roteiro a coloca no início do filme. É o professor que, de uma hora para outra, é obrigado a ensinar ciência em árabe, e não mais no dialeto local. Além de impor o assassinato de uma língua por motivos religiosos, a medida deixa as crianças sem entenderem o conteúdo, perdendo o entusiasmo pelas aulas. E a figura de uma autoridade vigiando o professor não é algo de décadas atrás em uma monarquia religiosa, mas algo atual, muito atual. O eco de uma “escola sem partido”, um movimento que propõe justamente isso, a moralização do ensino, a perseguição ao diferente. E se, de repente, Casablanca é aqui?

Por Gabriel Fabri

Confira o trailer de Primavera em Casablanca clicando aqui.

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