Nasce Uma Estrela – Crítica

Uma das cantoras pop mais influentes dos últimos anos, Lady Gaga chamou atenção não só pelo talento musical, mas por protagonizar momentos no mínimo peculiares, ao dar vida a uma personagem na qual ser esquisita ou diferente era a norma: o famigerado vestido de carne, usado no palco do Video Music Awards de 2010, foi o ápice desse movimento. Embora nunca tenha chutado o balde contra uma imagem pop fabricada, a norma imposta pela indústria da música, Gaga sempre pareceu uma mistura de crítica e ode a esse universo, no qual a sua personagem representava, em essência, uma hipérbole do mundo pop.

Por sua originalidade, é difícil pensar em Gaga como uma personagem moldada pela indústria, embora suas músicas, pelo menos até o álbum Joanne, tenham inegável apelo e estrutura comercial. Gaga chegou com esquisitices em um mundo dominado pela aparência perfeita. E caminhou com as próprias pernas. Entretanto, não é difícil enxergar a cantora, agora também atriz, em sua personagem em Nasce Uma Estrela, estreia de Bradley Cooper na direção.

Inspirado no filme de mesmo nome de 1976, de Frank Pierson (que, por sua vez, era um remake de um longa-metragem de 1937 sobre uma atriz que sonha em se tornar estrela de Hollywood), Nasce Uma Estrela conta a história de Jack (Cooper), um músico veterano e bastante famoso, mas alcoólatra. Ele conhece a talentosa Ally (Gaga), e os dois começam um romance, ao mesmo tempo em que ele a incentiva com os primeiros passos de sua carreira. A medida em que a garota decola, os problemas pessoais de Jack se agravam.

O longa-metragem passa à margem de problematizar o fato de que Ally se apaixona pelo homem que empurra a sua carreira, e o quanto essas oportunidades que ela recebe poderiam influenciar o seu amor por ele. Haveria uma relação de dependência sendo criada aqui? O roteiro foca na paixão dos dois e também nas consequências da autodestruição de Jack na carreira de Ally, mas faz isso sem cair na fácil vilanização do personagem de Cooper. Jack é a vítima e o herói melodramático aqui. Vítima porque não aguenta a pressão do show business; herói porque introduz Ally nele e a apoia, mesmo que pareça fazer o contrário. É um personagem idealizado, embora tenha muitos defeitos (em decorrência das drogas), o que parece novamente contraditório. Mas funciona, pois a escolha aqui é por conduzir Nasce Uma Estrela como uma história de amor.

Com um final simples, mas avassalador, e boas performances musicais, com destaque para “Shallow”, Nasce Uma Estrela emociona. É também um passo importante na carreira de Gaga, que está bem em cena ao lado de Cooper. A sua força maior, entretanto, é na música, e a cantora conquista o público de cara com sua versão de La Vie En Rose, de Edith Piaf. Mas o filme certamente deve ter um grande peso em sua carreira: em linhas gerais, o romance é uma crítica bastante direta à indústria musical. Hoje à margem diante de nomes como Taylor Swift e Ariana Grande, Gaga agora tem autonomia para um projeto como esse filme,  no qual o maior prêmio da indústria, o Grammy, é ridicularizado, junto com a música pop e os empresários do ramo – o agente de Ally, não à toa, surge como o verdadeiro vilão do filme.

Por Gabriel Fabri 

Assista ao clipe da música Shallow clicando aqui.