Culpa (42ª Mostra Internacional de Cinema)

Pré-indicado da Dinamarca ao Oscar 2019, Culpa, de Gustav Möller, consegue um feito para poucos: constrói um thriller eletrizante do começo ao fim, com apenas um personagem, dentro de uma sala, e um telefone. O longa-metragem integra a programação da 42ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo.

Aguardando o julgamento que pode colocá-lo de volta à ruas, o policial Asger trabalha na escuta das chamadas de emergência. Pouco antes do final do que poderia ser o seu último turno, o oficial recebe a ligação de uma vítima de sequestro, que finge estar conversando com a própria filha, de modo a não levantar a suspeita do sequestrador. Localizar essa mulher, entretanto, será mais difícil do que parece, e a única arma que Asger pode usar é o telefone de sua mesa.

O diferencial de Culpa para um filme de sequestro comum é que em nenhum momento vemos o rosto das vítimas ou do algoz. O tempo todo acompanhamos apenas a voz deles, em ligações com Asger. Embora toda a ação do sequestro não seja mostrada, isso colabora para que a tensão seja ainda maior – pois, somada à situação tensa, sentimos na pele a ansiedade de Asger, que não tem muitas possibilidades de ação para impedir tragédias maiores, além de telefonar. Tampouco há aqui uma equipe de investigadores discutindo o caso, procurando pistas: é uma jornada solitária de um homem apenas, talvez o último gesto de bondade dele antes do oficial ser, por algum motivo, condenado.

Com um final surpreendente, Culpa segura o espectador na poltrona do começo ao fim, mesmo com nenhuma ação física. A tensão, elevada, está toda sendo construída gradualmente nas falas. O que é interessante, pois, de certa forma, o filme chama à atenção para a facilidade com a qual o discurso pode nos enganar, ou sugerir caminhos que não são verdadeiros.

Por Gabriel Fabri

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