A Casa que Jack Construiu (42ª Mostra Internacional de Cinema)

Desde Ondas do Destino, o cineasta dinamarquês Lars von Trier se firmou como um autor de melodramas provocativos e polêmicos. Uma das características principais desses filmes, com a exceção talvez de Anticristo, era ter como protagonista uma mulher no papel de vítima e também de heroína, também um traço melodramático. Tamanha crueldade retratada por von Trier em seus filmes o levaram a ser taxado, por uma parcela considerável do público e da crítica, de misógino, apesar do viés feminista de suas histórias, a começar por essa estrutura melodramática que denuncia a violência contra a mulher – feita através de uma hipérbole muitas vezes cruel de seu sofrimento. O seu novo filme, porém, parece uma pobre provocação a quem não enxerga esse viés feminista em seus filmes, ou a quem acredita que suas obras expressam um desejo do diretor de ser violento com o sexo oposto. Vazio, A Casa que Jack Construiu fica muito aquém do cinema de alta qualidade e originalidade que Lars sempre entregou ao público.

O problema talvez seja a novidade desse longa-metragem, o primeiro desde Europa no qual o protagonista é um homem, e não a mulher. No caso, acompanhamos uma história comum de um serial killer, como tantos esses que vemos em Hollywood, que mata por matar (a explicação do filme: é como um vício).  O ponto de vista não é o da vítima, e sim a do próprio Jack (Matt Dillon), que, assim como a protagonista de Ninfomaníaca, narra seus casos para um locutor que comenta a história, inclusive com várias referências das mais aleatórias. Nada de novo no enredo, mas, assim como Ninfomaníaca, está presente o discurso da inferioridade dos homens – não só o vilão é do gênero masculino, mas o seu primeiro incidente deixa claro que ele mata por ter uma masculinidade fragilizada, que não suporta ser cutucada, precisando sempre se autoafirmar (seu nome “artístico”, por assim dizer, é uma piada pronta).

Tendo Jack como vilão e as mulheres, a começar pela personagem de Uma Thurman, como mera vítimas, não há espaço para heróis em A Casa que Jack Construiu, o que de certa forma é um ponto interessante, que diminui a veia melodramática do diretor. Assim, o longa se propõe a entrar na mente desse assassino, mas ele não tem muito a dizer, e tampouco o seu interlocutor é um personagem da complexidade e força de Seligman, o ouvinte em Ninfomaníaca. Resta ao filme o choque pelo choque, e depois de Lars filmar uma mutilação vaginal em Anticristo e um grosseiro aborto caseiro na versão estendida de Ninfomaníaca, as cenas chocantes nesse filme são apenas o esperado  e nada mais.

Sem surpreender dessa vez, Lars von Trier se perde com uma discussão sobre a arte um tanto esquisita e um epílogo horroroso, a lá o quarto vermelho da série Twin Peaks, de David Lynch, com citações religiosas – a religião, tema com o qual Lars sempre trabalha nos seus filmes, aparece aqui como um mecanismo de negar o tigre que existe entre de nós, um meio de controle que iria contra a natureza humana. O motivo pode não ser religioso, mas o fato é que A Casa que Jack Construiu mostra que o tigre do diretor já não é tão forte, ousado e provocativo como antes.

Por Gabriel Fabri

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Próximas sessões na Mostra:

Cinearte Petrobrás 1 20/10/18 – 20:30 – Sessão: 192 (Sábado)

Playarte Marabá – Sala 1 21/10/18 – 18:40 – Sessão: 353 (Domingo)

Espaço Itaú de Cinema – Augusta Sala 1 22/10/18 – 20:40 – Sessão: 394 (Segunda)

Espaço Itaú de Cinema – Frei Caneca 3 25/10/18 – 20:45 – Sessão: 676 (Quinta)

CineSesc 28/10/18 – 20:45 – Sessão: 914 (Domingo)