O Doutrinador – Crítica

Circula pela internet uma charge na qual a personagem Mafalda, figura criada pelo quadrinista argentino Quino, é indagada por um colega: “Se matarmos todos os bandidos, ficariam só os bons, né?”. A garota logo responde: “Não, ficariam apenas os assassinos”. Compartilhada nas redes sociais por conta da ascensão do presidenciável que defende o armamento da população e que “bandido morto é bandido morto”, entre outras aberrações, a charge é um alerta quanto ao uso da violência para se combater a violência. É exatamente esse método a que se propõe o protagonista de O Doutrinador, longa-metragem de Gustavo Bonafé, inspirado na HQ de Luciano Cunha.

Após a filha ser vítima de uma bala perdida e não ter sido atendida em um hospital público, o policial Miguel (Kiko Pissolato) resolve vingar-se contra o governador acusado de desviar dinheiro da saúde do estado para o próprio bolso. Coberto com uma máscara de gaz, ele assassina o político, mas sua sede de sangue não se sasseia. Com a ajuda da hacker Nina (Tainá Medina), ele começa a caçar todos os corruptos e a tentar fazer justiça com as próprias mãos.

Nesse contexto preocupante em que vive o Brasil, no qual discursos de ódio permearam a eleição e a democracia corre risco real, o diretor Bonafé tinha aqui uma chance de ouro de explorar o tema da política e o discurso de ódio em prol de fomentar alguma discussão inteligente, ou pelo menos sensibilizar o público. Entretanto, resolve apostar no discurso fácil “contra a corrupção” e cria uma aventura rasa, em que o “justiceiro” é tratado como uma vítima e um herói bem intencionado, apesar de ser um assassino à sangue frio. O público, supostamente, deve vibrar a cada bandido de colarinho branco morto, ao longo de toda a projeção, para o longa-metragem, no fim das contas, falar que aquilo é errado mas a revolta é compreensível.

Sem trazer nada de novo para a discussão política, O Doutrinador se contenta em ser um entretenimento raso. Poderia funcionar mais se o protagonista fosse minimamente interessante, se o conflito dentro dele por ser um assassino fosse explorado – o homem sequer sente remorso e, assim, por que o público sentiria também? Simpática, Tainá Medina traz um pouco de brilho, no papel de um hacker descolada e inteligente. Entretanto, a personagem sabe que está ajudando um assassino, mas não toma atitude quanto a isso (ora, acreditar que ela faz isso por ser chantageada é muita ingenuidade, ela não consegue hackear o próprio celular?), o que não é nada girl power.

A reflexão que o filme se propõe, no fim das contas, é dizer que a corrupção é sistêmica e infelizmente não adianta sair matando todo mundo. Superficialmente, termina com uma narração que questiona a corrupção em todos nós, algo que não é retratado no filme – ninguém sequer comprou uma CNH ou fez um download pirata o filme todo, por exemplo. E a frase final, embora se refira a esses pequenos atos, deixa uma pulga atrás da orelha. A corrupção está em toda a parte. A pergunta é: “o que você vai fazer?”. Um final um tanto sinistro para os tempos em que vivemos.

Por Gabriel Fabri

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