Polar – Crítica

Quando, em 2014, foi lançado De Volta ao Jogo (John Wick no original e para os íntimos) aparentemente uma nova forma de se fazer filmes de ação foi inventada. Logicamente o conceito do supermacho matando um monte de gente existe há muito tempo, porém a enorme estilização da violência e a fotografia ousada, entre o noir e o Expressionismo Alemão, deu um ar de novidade. Não à toa o diretor David Leitch vem ascendendo, assumindo a direção de longas como Atômica (2017) e Deadpool 2 (2018). Todavia nem tudo são flores e exemplos de gosto duvidoso surgiram, a última delas é Polar, uma produção Netflix.

O longa-metragem tem como protagonista o implacável assassino Duncan Vizla, interpretado pelo dinamarquês cara de mau Mads Mikkelsen. Após uma brilhante carreira como matador de aluguel, o anti-herói receberá, da empresa onde trabalhava, uma valiosa aposentadoria, grande o bastante para gerar prejuízos àquela. Dessa forma a corporação conclui que matá-lo será a melhor maneira de sanar essa perda.

Cheia de personalidade, a direção de Jonas Akerlund faz jus aos quadrinhos e à graphic novel Polar: came from the cold, do qual filme é baseado. O diretor, que fez boa parte de sua carreira no mundo dos videoclipes, usa sem medo cores vibrantes e saturadas, inserções de texto que nomeiam os personagens, figurinos que remetem ao Cyberpunk e, principalmente, a violência extrema, que, se não for levada a sério, pode divertir os espectadores.

Na primeira metade observamos os esforços de Vizla em superar o seu passado enquanto faz amizade com a sua vizinha Camille (Vanessa Hudgens). Ao mesmo tempo acompanhamos o esquadrão de assassinos contratados para matar o protagonista e recuperar o dinheiro da aposentadoria. Há uma enorme contraposição entre os dois universos: no primeiro temos cores frias, um ambiente gélido e um clima intimista, já no segundo, cores quentes e saturadas, histeria e uma violência que beira ao ridículo.

Promovendo verdadeiros banhos de sangue por onde passam, o grupo de matadores é uma reunião de estereótipos toscos, agrupando uma asiática Cyberpunk, um nerd ruivo, um latino americano e uma mulher pelada. Em nível de bizarrice, perdem apenas para o vilão Blut (Matt Lucas), que parece ter saído da franquia Centopeia Humana.

O maior problema do filme é tentar ser tudo: tantas personalidades e acaba sem personalidade alguma. Oscilando entre a ação brucutu, o drama de redenção, e a comédia sangrenta de humor negro, o longa só funciona como a primeira, pois as duas últimas acabam se sabotando e, disputando entre si, enfraquecem a obra. A personagem de Vanessa Hudgens até tenta ser profunda, porém só está ali para ser salva em situação de perigo, já as palhaçadas da trupe assassina só devem divertir os fãs da filmografia do Rob Zombie.

Porém há qualidades. O ponto alto do filme está na atuação de Mads Mikkelsen, que incorporou com convicção o matador. A segunda metade do filme, quando todos os núcleos do filme se unem, as habilidades de Vizla, que oscilam entre Rambo e MacGyver, são realmente muito divertidas.

Apesar de todos os defeitos, Polar merece ser conferido, porém sem grandes expectativas e com o rigor crítico substituído por um balde de pipoca.

Por Caio Ramos Shimizu

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