Não Olhe – Crítica

O mito do duplo é uma das narrativas mais presentes no imaginário coletivo. De lendas nórdicas e pré-colombianas para o Dorian Gray de Oscar Wilde ou os contos de Edgar Allan Poe, até séries de TV adolescentes, como Pretty Little Liars e The Vampire Diaries, a ideia de um alter ego, muitas vezes de personalidade oposto ou maligna, é recorrente nas mais diversas produções de cinema, TV ou literatura. É dessa fonte que bebe o suspense Não Olhe, de Assaf Bernstein.

Na trama, Maria (India Eisley) é uma adolescente bela, mas muito tímida. Solitária, ela tem apenas uma amiga que, na verdade, nem pode ser considerada uma realmente. Um dia, porém, ela descobre uma foto de um ultrassom em seu quarto, que lhe traz a suspeita de que teria uma gêmea. A partir daí, ela começa a enxergar no espelho não a si mesmo, mas Airam (o nome é Maria, refletido), uma versão muito mais autoconfiante e determinada de si mesma ou a sua irmã do mal, falecida por um motivo o qual ela não faz ideia?

O filme se divide em dois momentos: o primeiro mostra o ambiente repressor de Maria, com o qual qualquer pessoa que passou pelo colegial pode se identificar – somado a presença bizarra de seu pai, um cirurgião plástico, ou seja, um profissional dos padrões de beleza. Não é, portanto, um espírito maligno que assombra Maria, e sim pessoas reais. Airam é, na verdade, um conforto para a garota, que acaba deixando, na segunda parte do filme, com que o seu duplo a influencie para realizar os seus mais profundos desejos.

Sem apelar para sustos fáceis, Não Olhe funciona mais como filme adolescente do que um terror ou suspense. A revelação de que ela poderia ter tido uma irmã é como um gatilho psicológico para Maria liberar seus mais profundos desejos, movida pela raiva, pela solidão e pela indignação. Airam, como o espírito da irmã, lhe dá o poder de fazer isso de maneira confiante, coloca-se a responsabilidade sobre um terceiro para libertar o seu lado negro. Embora não tenha um desenvolvimento muito criativo, o longa-metragem deixa em aberto a interpretação do que exatamente é Airam, um espírito, a irmã, o duplo, ou a própria Maria manifestando todas as emoções reprimidas em sua vida e transformando em ação os seus pensamentos mais obscuros.

Por Gabriel Fabri

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