Entrevista: “Eleições” propõe um novo olhar à escola pública

Na escola Alarico Silveira, adolescentes se reúnem em quatro grupos diferentes para disputar a eleição do grêmio estudantil. A partir daí a ação política e a cultura da democracia começam a se fortalecer dentro daquela instituição. Essa é a premissa de Eleições, documentário que mostra o potencial da escola pública para a construção de uma sociedade mais atenta a suas próprias questões.

Nesta entrevista exclusiva, a diretora Alice Riff fala um pouco sobre a produção do filme e a sua importância na atual conjuntura sociopolítica. Confira:

A diretora Alice Riff
A diretora Alice Riff

Pop with Popcorn: Em relação à pré-produção, como foi o processo de pesquisa que resultou na Escola Alarico Silveira? Por que, entre tantas, ela foi a escolhida?

Alice Riff: A pesquisa começou em 2016, porque me instigou entender como seria a volta dos estudantes nas escolas depois das ocupações realizadas por eles em 2015. Então, conheci uma escola que vinha fazendo um processo de grêmio, e veio a ideia de filmar uma eleição. Fui buscando escolas que tinham grêmio, até que conhecemos a Alarico e alunos, professores e funcionários abraçaram a ideia e nos acolheram. O projeto do filme entrou no currículo pedagógico dos alunos, assim como o processo fílmico foi construído de forma pedagógica.

As filmagens começaram no primeiro dia de aula de 2018. Nos meses anteriores, eu e Vanessa Fort, que junto comigo roteirizou e pesquisou, encontrávamos os alunos separadamente ou em grupos, e foi um começo de diálogo com eles. Quando chegamos na etapa de filmagem, sabíamos muito pouco o que iria acontecer – quais seriam as chapas, quem seriam os personagens… – mas tínhamos já muita coisa mapeada. Chegamos para filmar com um roteiro com possibilidades narrativas e marcos narrativos prontos.

Fica muito evidente, ao longo do documentário, que aqueles adolescentes estão todos muito à vontade na frente das câmeras. Algo que impressiona, já que uma filmadora pode ser muito intimidadora em um primeiro contato. Como foi o trabalho para acostumar aqueles jovens e deixá-los à vontade em relação à equipe de gravação?

Considero essa minha principal investigação no documentário. Tenho, ao longo dos meus filmes, investigado essa relação entre os personagens e eu. Esta acontece por um intermédio de uma câmera, problematizando assim essa relação eu/outro, que é uma discussão do documentário e também da antropologia. Acredito que essa sua percepção, de que eles estão à vontade, vem destas reflexões eu tenho feito, e como eu crio a relação com eles nas filmagens. E para mim, o segredo está em fazer com que os personagens não só entendam o que é a ideia do filme, mas tomem o filme para eles também. Todos ali sabem do filme que estão participando, suas intenções, objetivos, e inclusive podem discordar delas. Converso e debato muito antes de filmar. E inclusive, a discordância e o questionamento dos personagens são levados em conta. O filme é construído nessa relação. E então, na hora de filmar, a consequência são pessoas que sabem que estão ali por um motivo, que querem estar ali representando a si mesma, porque aquilo faz sentido para elas. É um fazer fílmico em que todos – equipe e personagens – estão em um espaço de reflexão individual e coletiva, e isso se reflete nessa segurança de todos em estarem no filme.

O longa tem um ar muito leve, que se dá principalmente pelas duas repórteres, que criam uma ponte direta entre os personagens e o público e protagonizam os momentos mais engraçados da obra. Elas já faziam um trabalho parecido na escola, foram selecionadas e preparadas ou o protagonismo delas se deu espontaneamente?

Como em todo processo eleitoral, um personagem essencial é a mídia. Então eu queria que tivesse uma cobertura das eleições, e que fosse realizada pelas próprias alunas. Propus e elas toparam, e de fato trazem um frescor para o filme. Elas não faziam nada parecido. Elas são bem amigas e são alto-astral.

A escola pública se tornou um tema polêmico nas últimas décadas. Por mostrar tal ambiente de uma forma tão crua, houve algum tipo de embargo ou objeção ao documentário?

Não. Inclusive, educadores e gestores estão olhando o filme com bons olhos: a escola pública é um desafio para todos nós, e o filme a defende do começo ao fim. Aprimorá-la, melhorar o clima escolar, chamar toda a comunidade para pensar nos problemas da escola é o que o filme propõe.

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Uma coisa que chama muita atenção no filme é como as eleições acabam despertando a consciência política e transformando a maneira como aqueles jovens veem a escola. Qual o papel do sistema educacional em incentivar o senso crítico para, a partir daí, aperfeiçoar as nossas relações de cidadania?

Cidadania, sociedade, democracia, justiça e solidariedade: esses conceitos todos são construções sociais. Dessa forma não temos uma democracia plena se ela não for construída, ensinada, aprimorada e exercitada. O próprio conceito de cidadão deve ser ensinado: quais são seus direitos, quais são suas liberdades, onde ela para? A escola, espaço em que crianças e jovens passam a maior parte do seu tempo, deve ser um espaço radicalmente democrático. Só assim os jovens vão aprendendo a questionar, a negociar, a medir liberdade e responsabilidade. Também é por experiências democráticas dentro da escola e em outros espaços que os jovens vão se apropriando desse sistema e compreendendo que sua construção e manutenção é responsabilidade de todos. Mesmo que seja lutar por coisas que alguém pode julgar bobagem, como ter música no intervalo, pode se transformar em uma série de aprendizagens para esses jovens.

Atualmente vemos movimentos como o Escola sem Partido com representantes no congresso ao mesmo tempo em que o próprio Presidente da República prega “uma escola que forme jovens preparados para o mercado de trabalho e não militantes”. Como esse discurso impacta nosso sistema educacional, tanto no trabalho dos professores quanto na formação dos alunos?

O mercado de trabalho e o país precisa de profissionais criativos, questionadores, inovadores e inquietos. Um país soberano precisa de pessoas com suas potencialidades desenvolvidas desde pequenininhas. E educação de qualidade é um direito de todos e todas, e não um privilégio. Entendo que nossa discussão sobre educação voltou pelo menos 80 anos com esses projetos, mas tudo o que foi construído e teorizado sobre educação não volta. Continuo insistindo em um debate sofisticado sobre educação, reconhecendo as fragilidades da educação pública no Brasil. Tenho passado o filme para professores e educadores, pessoas que estão diariamente na escola, comprometidas com a educação pública de qualidade, e o filme tem contribuído muito para pensarmos nos desafios da escola. Esse discurso impacta porque ele fomenta o medo e a vigilância. E pode afetar toda uma geração que terá danos irreparáveis com todas essas políticas. Quando o ex-presidente Michel Temer congela durante 20 anos os investimentos em educação e saúde, e, mais recentemente, o atual ministro da Educação (Ricardo Vélez Rodríguez) fala que universidade não deve ser para todos, fica clara uma política pública de educação excludente. Isso é irreparável, há um monte de gente potente sendo privada de oportunidades de uma vida digna. Incluindo aí os professores, claro.

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A vereadora Marielle Franco é lembrada diretamente pelos alunos da escola. Partindo das suas experiências na produção do documentário, você percebe que o estudante, principalmente de escola pública, se sente diretamente afetado por crimes dessa natureza, ou aquela homenagem foi um fato isolada da Escola Alarico Silveira.

A escola e o mundo conversam e sempre conversarão, porque os alunos e professores que estão na escola vivem no mundo. Todos os fatos do mundo estão na escola. Se ocorre um tsunami no Japão, o professor de geografia pode usar o fato para explicar sobre placas tectônicas. Se ocorre a tragédia de Brumadinho, um professor pode explica-la do ponto de vista físico, outro do ponto de vista político-econômico, o professor de português pode trazer um poema de Drummond. Assim como o caso da Marielle deve ser levado para a escola para trabalhar uma série de temas ligados a história, sociologia. Assim a escola ganha sentido. As aulas ganham sentido.

Um dos momentos de maior tensão do documentário é o conflito entre a Ronda Escolar e alguns estudantes. Como esse tipo de ação, feita por forças do Estado, ajuda ou atrapalha no processo pedagógico?

A questão é que estudantes são estudantes, e não caso de polícia. Conflitos existem dentro da escola. Mas nunca vi polícia militar entrando cotidianamente em escola de filhos de ricos. Há um olhar sobre o jovem pobre no Brasil que é preconceituoso, é ameaçador, é racista. Só atrapalha o processo pedagógico uma escola que educa baseada no medo, na ameaça, na descrença e desconfiança do aluno, violência, etc.

Sendo contemporâneo ao assassinato de Marielle Franco, podemos compreender que a produção do documentário se deu no primeiro semestre de 2018, ou seja, antes da eleição de Jair Bolsonaro. Você acredita que, dentro da nova conjuntura, possa haver uma ressignificação da sua obra?

Acho que o filme acaba sendo é um retrato de 2018 no Brasil, e lembrando de todo o processo eleitoral, podemos traçar uma série de relações. Acho que a obra vai sendo ressignificada sempre, em 10 anos teremos outra compreensão dela, e assim vai.

Por Caio Ramos Shimizu

Confira o trailer de Eleições clicando aqui.