A Chuva é Cantoria na Aldeia dos Mortos – Crítica

A natureza, quando observada com um pouco de sensibilidade, revela pequenos elementos que nos remetem à magia. A penumbra, iluminada apenas pela luz da lua e musicada pelo canto dos grilos nos transmite exatamente essa sensação, e é dessa forma que se inicia A Chuva é Cantoria na Aldeia dos Mortos.

O longa-metragem, dirigido por Renée Nader Messora e João Salaviza, gira em torno de Ihjac Krahô, um jovem indígena em luto pela recente morte do seu pai.

O maior mérito dos diretores é sem dúvida a habilidade de captar o ambiente, capaz de fazer o espectador mergulhar neles, principalmente na aldeia e na mata em seu entorno, lugares nos quais se passa a maior parte do filme. As cenas noturnas, por exemplo, são poderosíssimas. Em uma delas, testemunhamos uma conversa sobre o poder da mágica e a prepotência daqueles que a dominam. Iluminados apenas pela luz de uma fogueira, os interlocutores ilustram as tensões de Ihjac, ainda oprimido pela perda.

A floresta e o seu misticismo chegam a se comportar também como um personagem, conduzindo a trama e determinando as ações do jovem indígena. Vale destacar uma arara, cuja presença perturba o protagonista e faz com que ele fuja da aldeia e vá para a cidade.

O ambiente urbano muda completamente o tom do filme. Vemos o nosso mundo, independente da natureza e alheio à espiritualidade; pragmático e materialista. Não à toa, um dos momentos mais interessantes do filme é Ihjac sendo diagnosticado como hipocondríaco. É claro: os sofrimentos diagnosticados pelos pajés não cabem à nossa medicina.    

Um problema do filme é certamente a lentidão, principalmente no primeiro ato. Durante boa parte o longa apresenta situações que não avançam a trama; não apresentam personagens, pois estes já foram apresentados e também não expandem o ambiente, pois esse já foi mostrado. Podemos entender que tais momentos estão ali muito mais para serem sentidos do que para contar uma história. Porém, apesar de muito bem filmados dentro das claras limitações de orçamento, as imagens não são poderosas o bastante para gerar esse tipo de experiência.

Superada a lentidão, A Chuva é Cantoria na Aldeia dos Mortos é uma obra cuja importância se dá principalmente pela humanidade com que o indígena é tratado. Não se trata de uma obra antropológica: as questões culturais estão em segundo plano, dando lugar para os conflitos individuais de Ihjac, que podem ser estendidos a todos nós.

 Por Caio Ramos Shimizu

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