Entardecer – Crítica

Em 2007, David Fincher lançava “Zodíaco”. O filme mostrava os bastidores da caçada a um serial killer responsável por assassinatos nas décadas de 1960 e 1970 em São Francisco. Desconstruindo o suspense, quanto mais o longa avançava, mais distante ficavam os protagonistas e o público da resolução dos crimes. László Nemes propõe experiência semelhante em Entardecer.

O cineasta húngaro, que, em 201,5 ganhou o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro por O Filho de Saul, retorna com um longa que mostra a jornada de Irisz Leiter (Juli Jakab) em busca do passado de sua família, na Budapeste às vésperas da I Guerra Mundial.

Acompanhando os primeiros passos da protagonista, o roteiro até nos parece dar algumas pistas, sugerindo que a trama irá caminhar de maneira convencional a um final elucidativo. Logo descobrimos que fomos enganados: a cada novo elemento apresentado, surge novas dúvidas que vão se sobrepondo, nos desorientando e criando um clima de crescente tensão.  

A construção, tanto do clima quanto da própria narrativa, se dá pelos enquadramentos e movimentos de câmera. Irisz está sempre no primeiro plano de imagens com pouquíssima profundidade de campo. O fato de o filme ser filmado quase que inteiramente dessa forma poderia soar repetitivo, porém não. No início, tal recurso nos mergulha na personagem, nos aproximando dela. Posteriormente, quando as tensões se acentuam, vemos de perto o medo e o desespero em seus olhos enquanto o caos e a violência explodem em seu entorno. Em ambas, porém, evidencia-se o tom subjetivo da obra: trata-se, acima de tudo, da percepção de Irisz sob os acontecimentos.

A vulnerabilidade de uma mulher naquela Hungria caótica e machista também não é deixada de lado, sendo retratada tanto sutil quanto agressivamente. Há momentos em que a violência se manifesta de maneira indireta e/ou como uma possibilidade, em outras ela acontece de fato.

Além da jornada de Irisz, o filme também nos mostra o retrato interessante de uma civilização na iminência do colapso, já que no ano seguinte eclodiria a I Guerra e o terror viria a soterrar aquela sociedade. As tensões crescentes e, acima de tudo, os segundos finais do longa nos permitem compreender que estamos acompanhando uma alegoria de uma Europa à beira do abismo.

Entardecer não é um filme fácil, não dá respostas e é em diversos momentos indigesto. Contudo, diante das diversas camadas e da extrema habilidade com que elas são trabalhadas pela direção, é uma obra necessária.

Por Caio Ramos Shimizu

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