O Nascimento de Uma Nação (40a Mostra)

Lançado nas telas em 1915, O Nascimento de Uma Nação, de D.W. Griffith, tornou-se um marco na história do cinema, sendo o primeiro filme de grande repercussão do cineasta reconhecido como o pai da linguagem cinematográfica e do cinema clássico hollywoodiano. Não é, entretanto, um filme fácil de digerir: é abertamente racista, e tem como os seus heróis o grupo extremista Ku Klux Klan, representados gloriosamente no próprio cartaz do longa-metragem. O estreante Nate Parker, quando pensou em dar o mesmo título para o seu O Nascimento de Uma Nação (The Birth of a Nation), acertou em cheio na provocação: retratando um episódio real, mostrou que os Estados Unidos foi formado com o sangue dos escravos negros, e não com a “honra” dos brancos racistas.

De um dos prováveis favoritos ao Oscar 2017,  já que fora aclamado no Festival de Sundance, o filme é hoje alvo de boicote, por conta de uma polêmica envolvendo uma acusação de estupro de quando Nate (que também produz, co-escreve e estrela o filme) e o outro roteirista, Jean Celestin, estavam na faculdade. Vida pessoal do diretor e do roteirista a parte, o importante é que a exploração sexual das mulheres negras está presente na crítica política do filme.

O Nascimento de uma Nação, o de Parker, é um melodrama clássico, que mostra a violência contra os negros no sul dos EUA do século XIX. A inspiração é de uma rebelião de escravos que aconteceu em Virgínia no ano de 1831. Além do maniqueísmo representado na dualidade brancos versus negros, o filme coloca Nat Turner (Parker) no papel de herói e vítima. Ele não é, entretanto, um escravo comum: aprendeu a ler e sempre foi “respeitado” pelo seu senhor, e agora usa seus dons de pregador para conseguir uma grana extra para a fazenda.  Quando essa relação de suposta amizade chega ao fim, Turner resolve liderar uma revolta.

O filme cumpre o objetivo de relembrar a plateia toda a crueldade, violência e repressão que os negros sofreram nas mãos dos brancos ao longo de tanto tempo por conta do discurso de que eles supostamente eram inferiores e que sustentou por tanto tempo a escravatura nas sociedades (o filme fala sobre os EUA, mas não custa relembrar que o Brasil foi o último país a proibir a escravidão no continente). Entretanto, o longa-metragem parece não sair do lugar comum, e não impressiona ou emociona como 12 Anos de Escravidão, sequer é criativo na abordagem como Django Livre. A provocação do título é a melhor contribuição da obra, ao associar toda a crueldade mostrada com a formação do país que se diz o país da liberdade.

Talvez isso seja um ponto positivo, mas o filme falha na construção de Turner como um herói. Após viajar vendo como os negros eram maltratados, e ainda sim pregar a favor de que eles continuem aceitando a sua condição, Turner precisou sentir na pele dele para tomar uma atitude. Precisou ver que o seu senhor não era seu amigo, ou que sua esposa fosse vítima de violência, para, assim, organizar uma revolta sangrenta com tons de vingança. Nisso, fica uma mensagem interessante no filme: a de que violência gera violência. A tendência do oprimido é sempre reagir com violência com o opressor, mesmo que responder na mesma moeda dificilmente seja a melhor resposta. Mas o fato é que fica difícil simpatizar tanto com o herói, uma vez que ele, achando-se superior aos outros, em um exercício ególatra, usa o nome da Providência como se fosse o grande escolhido para mudar as coisas, e coloca todos em uma missão suicida. As consequências desse ato não são trabalhadas no personagem, tratado como o herói do começo ao fim. É um personagem real com grande valor histórico, sim, mas essa construção fílmica o enfraquece ao tentar enaltecê-lo. Como Turner se sentiu após o fracasso da revolta? Está aí algo que ficou faltando explorar para mostrar que o personagem é mais complexo do que se desenha aqui.

| Gabriel Fabri