A Grande Aposta

Títulos subprime, CDOs, derivativos e CDSs são alguns dos conceitos econômicos usados na explicação para a crise do sistema imobiliário norte-americano de 2008, que abalou a economia mundial, gerando desemprego e criando uma recessão cujos efeitos são sentidos até hoje. O excelente documentário Trabalho Interno, de Charles Ferguson, já tratou de explicar como a ganância dos homens de Wall Street, a desregulamentação do setor financeiro e a negligência do governo dos EUA e das agências de risco (que atribuíam risco zero – a nota máxima AAA – a títulos que não valiam nada) destruíram o sistema hipotecário nos Estados Unidos e fizeram o mundo todo pagar a conta. Em A Grande Aposta, longa-metragem dirigido por Adam McKay e indicado a cinco Oscars (incluindo Melhor Filme), a crise é explicada por meio da história real de pessoas que previram a quebra do sistema e, como bons capitalistas, resolveram lucrar com isso.
Baseado no livro A Queda de Wall Street, do jornalista Michael Lewis (autor dos livros que inspiraram Um Sonho Possível e O Homem Que Mudou o Jogo), o filme traz personagens um tanto excêntricos, como Michael Burry (Christian Bale) e Steve Eisman (Steve Carell), dois homens que resolvem investir milhões no colapso do sistema imobiliário norte-americano, considerado um dos mais seguros do mundo (afinal, quem não paga as suas hipotecas?). Brad Pitt e Ryan Gosling completam o elenco.
O tema é confuso e complexo, mas o filme de McKay consegue aproveitar isso a seu favor: com humor, coloca a atriz Margot Robbie na banheira para explicar que toda vez que a palavra “subprime” é mencionada, ela significa “merda”; um chef famoso, comparando os títulos que os bancos vendiam a uma sopa de frango velho; ou uma participação mais que especial da cantora e atriz Selena Gomez, explicando a crise em uma metáfora do jogo de Poker. Para o mecanismo da crise e a sua perversidade ficarem claros, o longa-metragem coloca interrupções em que os personagens dialogam com o público, por exemplo. Ou frases de efeito – a mais engraçada, “a verdade é como poesia. Quase todo mundo odeia poesia”, soa tão espontânea e sincera que pode arrancar gargalhadas da plateia.

Mas o filme não é uma comédia, e apesar de se esforçar em ser didático, acaba não sendo muito, uma vez que o tema é realmente muito complexo – e o longa-metragem não é um filme sobre economia. Na essência, estão homens infelizes e gananciosos que desprezam Wall Street e, mesmo assim, agem de acordo com as regras do jogo, visando o lucro pelo lucro, comemorando que estavam certos sobre o sistema fraudulento das hipotecas e o aumento da inadimplência (falta de pagamentos das prestações hipotecárias de suas casas). Mas a obra tem um tom melancólico e político, de que algo muito injusto aconteceu (os pobres, os imigrantes e até os professores foram considerados os culpados pela bagunça dos outros), pelas mãos de muitas pessoas inconsequentes. E não havia muito o que se fazer: tudo o que está ao alcance desses personagens é lucrar com o declínio dos outros.

O mérito de A Grande Aposta, apesar de exagerar um pouco na caracterização de seus personagens, em especial no de Carell, é dar uma dimensão mais humana da crise, tentando focar mais em seus personagens do que no sistema: é emblemática a cena em que Eisman conversa com os homens que concediam os empréstimos às pessoas que não poderiam pagar, para ganhar os recheados bônus. Ou quando uma funcionária de uma agência de risco, a Standard & Poor’s, é confrontada sobre porque os títulos subprime continuam classificados como AAA: “Se a gente não der, eles viram à esquina e vão na Moody’s”, afirma a personagem (nada sutilmente caracterizada com óculos escuros que a cegam), em referência à agência de classificação de risco concorrente da Standard.

Entretanto, a complexidade do pano de fundo do filme, a crise, pode em alguns momentos dar um nó na cabeça do espectador, que corre o risco de, tentando entender os detalhes, perder a atenção (ou o interesse) nesses personagens. O filme poderia, em algum momento, retomar explicações anteriores – afinal, fazem sete anos que a bolha imobiliária estourou, mas seu mecanismo ainda não é compreendido por todos. Não o faz. Isso não tira o mérito da obra, que exige bastante do espectador, o que é bom por outro lado.

| Gabriel Fabri

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