Cineasta Carla Camurati e secretário Ricardo Rihan falam durante a Expocine

Diretora de Carlota Joaquina, Carla Camurati, e secretário do audiovisual de Bolsonaro, Ricardo Rihan falam cinema brasileiro durante a Expocine 2019

Um pouco antes de receber o atual Secretário do Audiovisual, a Expocine 2019 trouxe, em seu terceiro dia de atividades, a cineasta Carla Camurati, cujo filme Carlota Joaquina é símbolo da retomada do cinema brasileiro, após o desastroso fim das políticas de incentivo ao setor no governo Collor. Ao relembrar a produção do filme de 1995 e comentar os desafios do presente, a cineasta não se esquivou de falar de política.

“Eu acho que tem assuntos que a gente tem que falar”, pontuou a cineasta, que prepara o seu primeiro documentário político, cujo título provisório é História do Tempo Presente. “É normal a gente sentir medo”, comentou, ressaltando que o caminho é não deixar esse sentimento paralisar a produção, que hoje é beneficiada por novos fatores, como a multiplicidade de telas e a maior capacitação do mercado.

O novo filme, cujo primeiro corte foi finalizado há poucos dias, fala sobre a redemocratização do país até a eleição de Bolsonaro. Com imagens de arquivo, sem entrevistas, faz uma colagem na qual busca apresentar apenas os fatos. São mais de três décadas apresentadas de maneira sintética.

“O filme não dá chance para alguém dizer que se arrependeu”, explica. “Nesse sentido, ele é cruel”. A ideia, ou necessidade, de realizar o documentário veio após uma conversa de Carla Camurati com o seu filho pré-adolescente, que havia afirmado que nunca antes na história o Brasil teve uma inflação como a do período Dilma – uma tremenda desinformação. “Ele estava aprendendo Napoleão na escola e não conhece o próprio país”, comentou a diretora. Para ela, o Brasil é um país adolescente. “Nas melhores e nas piores coisas”.

Sobre Carlota Joaquina, Camurati comentou que foi um projeto feito com muito amor. Foram seis semanas de filmagens, que foram diluídas ao longo de oito meses. A produção teve que usar de muita criatividade para dar certo – e até o pai da cineasta entrou na roda, fazendo, de última hora, uma ponta como um padre. Outra solução criativa foi na distribuição, percorrendo o Brasil com o elenco como uma trupe de teatro, estreando em pequenas salas. “As soluções estão dentro da gente”, conclui. “E para lidar com as dificuldades, um punhado de alegria vai bem, mesmo que ela seja um pouco forçada no começo”.

Aberto ao diálogo

Em seguida, a Expocine recebeu o Secretário do Audiovisual do Governo Bolsonaro, Ricardo Rihan. Confrontado com as diversas indefinições que permeiam o governo brasileiro quanto ao setor, como a renovação da Lei do Audiovisual e a formação do Conselho Superior do Cinema (relação completa na foto acima), o secretário começou dizendo que o momento era de diálogo, e que entendeu isso quando não foi massacrado pela sua nomeação – afinal, tinha produzido um filme de direita (Real – O Plano por Trás da História) e declarado voto em Bolsonaro, o que considera, humildemente, como uma “ousadia” de sua parte.

Durante sua fala, Rihan afirmou desejar que a Ancine deixe de concentrar várias de suas funções, voltando ao tripé do governo FHC que subordinaria, por exemplo, a Ancine ao Ministério da Economia, antigo Ministério da Fazenda. Ele também pretende propor a continuidade apenas do artigo 1A da Lei do Audiovisual, uma vez que há resistência com a lei no geral, evitando a sua paralização por completa. Essa sugestão foi criticada por um produtor presente no público.

A presidenta da Spcine, Laís Bodansky, elogiou a postura do secretário em querer dialogar, o que considerou um primeiro passo diante de tanta indefinição e insegurança vindo por parte do governo federal. Ricardo Rihan, entretanto, sentiu-se à vontade com o elogio para alfinetar o setor, dizendo que algumas pessoas precisam de mais amadurecimento para dialogar, e completou: “É um erro esse setor se associar tão fortemente a um partido político, ainda mais um que nos causou tão mal”, alfinetando os governos do Partido dos Trabalhadores. “Não é inteligente ter um partido que não seja o do audiovisual”, completa. “É complicado negar o governo e depender dele, criando um ambiente de ataques e ofensas”. Ele ainda alegou ter sido vítima de boicote e censura, mas não detalhou de que forma, exemplificando apenas com a fala de um amigo que disse que ele nunca faria filmes novamente, por ter se associado à extrema-direita.

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