A Pele Que Habito

   

Pedro Almodóvar é o principal exemplo de contracultura espanhola. Em seus filmes pouco comuns, consagrou-se com sua liberdade para tratar de temas sexuais, provocações e paixões. Desde seu primeiro filme, o caseiro e trash Pepi, Luci e Bom e Outras Garotas da Turma (1980) até este recente A Pele Que Habito ( La Piel que Habito, 2011), o cineasta misturou drama e comédia, a subgêneros como o melodrama e o cinema gay, passando pelo cinema noir, sempre com grandes personagens femininas.
Foi uma surpresa quando se anunciou que Almódovar faria um filme de suspense. Nesse, Antonio Bandeiras retorna as lentes do cineasta depois de Ata-me (1990) como um cirurgião que, abalado pela morte de sua mulher, que teve seu corpo extremamente queimado, desenvolve uma pele artificial resistente à picadas de inseto e, é claro, ao fogo. Essa pele é vestida por uma mulher muito semelhante à sua falecida esposa.
Na trama, a pele não é de tão importância quanto se parece no começo. É apenas o pretexto para se dar início a uma história que será contada em flashbacks e que trará à tona surpreendentes revelações. Com várias cenas fortes, como de característica do diretor, o filme se destaca a usar de um elemento que nunca se envelhece nos thrillers: nada é o que parece. E a maneira que o filme se desenvolve, tenso e sutilmente impactante, colabora para um clima de suspense diferente que Almodóvar conseguiu atingir nessa obra. O filme se assemelha no tema com o sueco A Centopéia Humana (não entrarei em detalhes para não entregar spoilers), mas o clima aqui proporcionado é um terror oposto. Ninguém vai morrer de medo na cadeira e sair berrando, pelo contrário, a história nos põe em transe e o suspense é apenas alimentado de modo a querer-se descobrir o quanto antes o passado dos personagens.
Assim, o diretor se superou nesse último trabalho: trouxe o seu universo polêmico de maneira surpreendente a um gênero até então não explorado por ele. Sem grandes reflexões filosóficas ou melodramas, A Pele Que Habito é uma obra-prima pura, cuja indicação ao Globo de Ouro de melhor filme não foi nada menos do que merecida.

3 comentários em “A Pele Que Habito

  • 20 de dezembro de 2011 a 16:55
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    sempre que vejo um filme de almodóvar, ponho-me na cadeira do cinema como quem vai ler nelson rodrigues, ou mergulhar num quadro de salvador dali ou magritte… são experiências sensoriais que nos mostram, pictoricamente, o universo das fantasias inconscientes que todos trazemos dentro de nós… os personagens de nelson rodrigues são assim… não existem aquelas mulheres devassas, aqueles homens pedófilos ou violentos… mas existe um germe de tudo isso no inconsciente de todo humano, por isso a leitura de nelson rodrigues é sempre um pouco ambívalente, agradável e repulsiva a um só tempo… o mesmo vale para os filmes de almodóvar… um cirurgião como esse, que tenta a seu modo vencer a morte e a diferença dos sexos, evidentemente não existe… mas ideias assim podem passar por qualquer uma das cabeças que estão lá, assistindo ao desfile dos personagens fantasiosos no telão… adoro almodóvar! a sutileza com que ele capta essas nuances da vida psíquica, e o modo pelo qual representa isso, com doçura e sarcasmo ao mesmo tempo, é coisa de gênio… este A PELE QUE HABITO é excelente, embora meu predileto ainda seja VOLVER… em todo caso, pra quem quiser passar um pouco das férias viajando nas viagens almodovarianas, sugiro ainda TUDO SOBRE MINHA MÃE, FALE COM ELA e MÁ EDUCAÇÃO… prepare a pipoca e divirta-se!

  • 22 de dezembro de 2011 a 16:24
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    não tem como não gostar dos filmes de Almodóvar, e com esse não é diferente. A pele que habito é muito intrigante mesmo e assim que sai da sala de cinema nao acreditei que alguem pudese ter uma idea tao genial. mesmo com mais de duas horas de filme, vc não cansa nem um segundo da historia.

    Amei a postagem gabe e parabens pelo blog!!!

  • 27 de dezembro de 2011 a 10:06
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    Gostei da crítica, Fabri, mas tenho que discordar de você num ponto: como assim "a pele não é de tão importância quanto se parece no começo"?!

    A questão da pele é central. A começar pelo título… O filme não trata única e exclusivamente sobre as invencionices do dr. Ledgard (Banderas) e seus desdobramentos estrambólicos, vai muito além: discute, de forma sutil (e quando digo pouco sutil me refiro a incrível capacidade do Cinema – quando Cinema de verdade, como no caso do filme – de apresentar e propor debates e reflexões a partir de imagens, sem necessariamente fazer uso de uma só palavra acerca do tema, ao contrário das telenovelas, por exemplo) o senso de reconhecimento inerente (ou não) em nós para com a nossa pele, nosso exterior, nossa fachada. E esse ponto dialoga diretamente com a temática gay sempre presente na obra do Almodóvar. É como se ele propusesse uma discussão acerca das nossas identidades afetivas e psíquicas. "Quem sou?" "Minha orientação sexual me define?" "Define minha aparência?" "Deveria definir?", e por aí vai…

    Bem, essa é minha opinião. Tente pensar no filme a partir deste ângulo e você verá como é uma obra rica – muito mais do que as atuações acertadas e a direção de arte refinada.

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