Foxfire – Confissões de Uma Gangue de Garotas

Por Gabriel Fabri

Recentemente, Sofia Coppola levou aos cinemas em Bling Ring a história real de uma “gangue”, composta majoritariamente por mulheres, que desafiavam a ordem por certos ideais – a fama e o poder, como uma forma de expressão, legitimação ou até emancipação em seus círculos sociais, por meio desses valores. Embora a maioria das motivações pareçam opostas às que buscam as meninas de Foxfire – Confissões de Uma Gangue de Garotas, segunda adaptação do romance de 1993 escrito por Joyce Carol Oates, elas possuem esse pequeno ponto em comum: o da libertação. Se em Bling Ring as meninas roubavam artigos de luxo que poderiam comprar, agredindo e exaltando o capitalismo ao mesmo tempo, aqui elas irão se isolar e montar uma espécie de culto socialista. É nessa “seita” na qual o longa de Laurent Cantet (Entre os Muros da Escola) irá se debruçar. 

O filme conta a história da gangue Foxfire, desde a sua formação. Ela parte de um grupo de amigas indignadas com a repressão da mulher na sociedade americana dos anos 1950, seja em suas próprias casas ou no colégio, onde uma delas é constantemente humilhada por um professor até se juntar ao grupo – e, junto com as novas colegas, tem sua vingança posta em prática. A Foxfire vai conquistando novas adeptas aos seus ideias políticos, aos poucos transformados em um estilo de vida.
São várias as questões que envolvem a obra de Cantet e que são colocadas para o espectador. O preconceito contras as mulheres e o caráter machista da sociedade são logo postos em xeque, e destruídos pela determinação e personalidade das personagens femininas, que formam um grupo bastante heterogêneo, rico em detalhes e em divergências, unidas por essa vontade de se libertar dessas opressões sociais. Depois da crítica ao capitalismo e à obsessão pelo dinheiro, o filme volta os olhos para as contradições internas do grupo, que variam sobre o modo de arrecadação monetária, o modo de atuação política, a maneira de se relacionar com os homens e até a admissão de novos membros, escancarando, em determinado episódio, o preconceito racial de uma maioria entre as integrantes em relação à uma jovem negra – a hipocrisia de lutar contra um preconceito, o preconceito dos outros, sem olhar para o próprio.
O livro, ambientado no auge do Macarthismo nos EUA e lançado apenas dois anos após o fim da Guerra Fria, trata a experiência das meninas como uma clara metáfora de um modelo socialista de organização social. Nem era tão necessária a associação explícita que o filme faz da personagem principal, Legs (Raven Adamson) com Fidel Castro, já no desfecho do longa. No discurso político das meninas, levado ao extremo quando a líder pixa em uma loja de vestidos de luxo a mensagem “dinheiro = morte”; ou na maneira como elas se organizam numa casa no campo e passam a viver sob um sistema de comunhão de bens; essa metáfora fica clara e críticas duras são feitas.
Logo no início, o caráter messiânico da personagem de Legs é evidente. Ela se torna o Deus das meninas – dita as regras, inventa um juramento e um ritual de entrada na Foxfire. Embora seja questionada em um certo momento – na questão envolvendo a personagem negra – , ela é o símbolo de adoração absoluta das outras personagens. O espectador que interprete como queira: uma crítica a pessoas oportunistas, à mistura de religião com política, o caráter personalistas de lideranças (como Castro, talvez?), a necessidade social de se organizar em torno de um líder.
O longa de Cantet passa longe de uma visão maniqueísta, ou panfletária, das questões políticas colocadas. Joga problemas para os dois lados e não deixa claro qual escolhe, pois nenhuma parece ser boa. Embora a experiência socialista das meninas seja passível de milhares de críticas, presentes na obra, elas são a única voz do filme a serem exaltadas. 
Todavia, a sensação no fim da experiência cinematográfica proposta por Foxfire é, a priori, de certo repúdio a tudo o que foi visto. Afinal, para se libertar de um sistema opressor, as meninas criaram um igualmente cerceador. Elas se libertam de uma sociedade machista, mas, em contrapartida, são proibidas, por exemplo, de se relacionar com homens – a menos que seja necessário roubá-los. O “socialismo” aparece como algo repressor e utópico. Mas, afinal, será que esse modelo é apenas uma chama, como o símbolo da gangue? Será que a chama da Foxfire realmente se apaga? O socialismo das meninas é um ensaio para o que viria a se tornar Cuba, no final dos anos 50? E Cuba se tornou essa experiência fracassada?
Assistir a Foxfire – Confissões de Uma Gangue de Garotas pode ser uma experiência muito rica para refletir não só sobre esses dois modelos de governo que continuam em pauta até hoje, mas também sobre preconceitos e problemas também presentes na atualidade. Um filme simples, um tanto longo, mas que pode gerar muita discussão e reflexão. E é disso que o melhor cinema é feito.  

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