Praia do Futuro

Por Gabriel Fabri

Em “O Céu de Suely”, o cineasta brasileiro Karim Aïnouz contou a história de uma mulher que, após tentar a vida na cidade grande, retorna ao lugar onde nasceu. Numa busca em que cabe ao espectador cogitar pelo o quê, ela decide vender rifas cujo prêmio seria uma noite com – pasmem – ela mesma. Em “Praia do Futuro“, filme que ambiciona ser o mais significativo da carreira do cineasta de “Madame Satã”, Karim retoma o tema da busca em uma obra mais sensorial e introspectiva.

Wagner Moura interpreta Donato, um salva-vidas que trabalha na Praia do Futuro, no Ceará. Nesses perigosos mares, ele não consegue salvar a vida de um turista. Ao comunicar a morte ao alemão Konrad (Clemens Schick), um amigo do falecido, acontece uma atração entre os dois. Ambos iniciam um romance cujo futuro será escrito na cidade de Berlim, na Alemanha. Completa o elenco Jesuíta Barbosa (“Tatuagem”), no papel de Ayrton, irmão de Donato.
O filme de Aïnouz é longo e silencioso, repleto de pausas e momentos de contemplação. Planos abertos da praia, de Berlim, das estradas e da piscina, que mergulham os personagens em uma imensidão, juntos com momentos icônicos como a dança ao som de “Aline” (de Christophe), resultam em um longa-metragem difícil, que pode parecer arrastado para a maioria da audiência, mas que proporciona momentos de reflexão quase existencial, diante dos relacionamentos presentes na trama.
Dividido em três capítulos, apenas o primeiro é rodado no Brasil. O calor tropical é bruscamente colocado em oposição ao inverno da cidade alemã, embora o filme passe uma sensação contrastante ao espectador: a frieza de Berlim vai aos poucos ficando mais aconchegante, talvez até pelo desenvolvimento da trama, que não contém reviravoltas ou grandes acontecimentos.
Boa direção e boa fotografia marcam presença em “Praia de Futuro”, um filme que trata com delicadeza das buscas de seus personagens, embora nunca revele quais são os seus horizontes. Karim Aïnouz é um cineasta que gosta mesmo das estradas e das imensidões dos lugares.

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