2 Coelhos

Dirigido por Afonso Poyart, santista que acaba de estrear em Hollywood com Presságios de Um Crime, 2 Coelhos é um filme de ação que se destaca pela construção da narrativa e pelo visual rebuscado. Apesar do longa-metragem não empolgar muito, ele propõe uma interessante experiência, considerando o cinema brasileiro recente.

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Edgar (Fernando Alves Pinto) passa suas manhãs, tardes e noites alternando entre jogar videogame e se masturbar. O público já vê, nesse começo do filme, que 2 Coelhos é um ponto fora da curva – introduz um protagonista pouco simpático e ainda em seu momento íntimo, logo após a montagem colocar aleatoriamente uma cena de atropelamento, que só mais tarde será explicada. O personagem principal, entretanto, tem um plano para ficar rico: envolve se aliar a Velinha (Thaíde), bandido que o assaltou no farol, e roubar um dinheiro que seria transportado para um deputado estadual – o montante de dois bilhões de dólares seria usado para ajudar a livrar um traficante das mãos da justiça. São partes importantes do plano de Edgar a promotora Julia (Alessandra Negrini) e o professor Walter (Caco Ciocler).

Construído de forma alinear, 2 Coelhos vai distribuindo aos poucos as peças que formam o quebra-cabeça do plano de Edgar, enquanto o público acompanha o desenrolar da estratégia do personagem. Essa narrativa fragmentada, junto com o visual que lembra, às vezes, um jogo de videogame, são dois diferenciais do filme.

Retratando a violência da cidade grande, seja a da corrupção entre os políticos ou a violência urbana, Poyart criou um filme muito diferente do que se via no cinema nacional em 2012. Apesar de ter sido vendido como uma história sobre “fazer justiça com as próprias mãos”, o longa-metragem não tem mocinhos – todos são vilões nessa história, agindo em torno de um mesmo objetivo, nenhum outro além de colocar a mão no dinheiro. Se afasta de filmes do gênero como Tropa de Elite ou Cidade de Deus justamente por tentar parecer mais jovem e também um pouco maluco.

Falar sobre corrupção no Brasil e no cinema brasileiro não é lá uma novidade, e o discursinho anti-corrupção do personagem Walter em determinada cena pode fazer o público revirar os olhos. Mas é o retrato de um fenômeno atual: veja Edgar, por exemplo, que reclama da justiça do país e aí resolve roubar alguns milhões, mesmo que tenha que explodir algumas pessoas e colocar outras em perigo. São tempos de alta hipocrisia e baixo altruísmo o que 2 Coelhos retrata.

Como os personagens não são lá muito interessantes, o filme demora para engatar. 2 Coelhos pode ser um pouco fraco como entretenimento, é fato. Mas é uma obra com personalidade.

| Gabriel Fabri

Disponível no Netflix.