Até O Último Homem

Mel Gibson tem fama de ser um cineasta “polêmico” – o exemplo mais contundente foi, sem dúvidas, A Paixão de Cristo, de 2004. No mais recente longa-metragem em que assume a direção, Até O Último Homem, o diretor realiza novamente um filme religioso, mas, dessa vez, opta por deixar a polêmica de lado. A história aqui é a de um heroísmo que, nas câmeras de Gibson, torna-se quase transcendental, como se um homem comum pudesse ser tão importante simbolicamente quanto Jesus. Se o personagem bíblico tinha a missão de salvar toda a humanidade com seus ensinamentos, o herói desse longa-metragem tem a missão de mostrar, na prática, como tais palavras podem ser seguidas por qualquer um.

O filme conta a história do jovem Desmond Doss (Hacksaw Ridge), de família católica do sudeste dos EUA. Filho de um ex-soldado traumatizado da I Guerra, ele resolve contrariar os apelos familiares para não servir na II Guerra e acaba se alistando, com sonho de ser médico. Profundamente religioso, também traumatizado por quase ter assassinado o próprio irmão em uma brincadeira quando criança, o homem tem a ilusão de que não pegaria em armas. E, convicto, irá fazer de tudo para não trair a própria crença e a própria moral.

O interesse de Gibson aqui vai além de discutir o papel da guerra, retratada com crueza nas cenas longas de batalha, mas não há profundidade nas questões políticas envolvidas. As motivações do inimigo não são colocadas na narrativa – apenas são maus e ponto. Entretanto, ao contrário do que se poderia esperar do gênero, aqui não há nem uma crítica muito explícita ou elaborada à guerra nem a tomada entusiástica por um lado na batalha. O foco é apenas no herói, que atua dentro da barbárie, indo a campo e salvando os soldados atingidos.

Doss apoia o conflito, a ideia de um mal necessário (a guerra) para combater um mal maior (Hitler), mas sabe que ele mesmo não pode pegar em armas, pois o mandamento diz “não matarás”. Sequer encostar em uma ele está disposto. Prefere ir preso a armar um rifle, pelo menos, antes de sentir na pele a barbárie que acontece em campo. Visto como “o covarde” pelos colegas, ele terá a sua chance de provar o seu valor, estando acima do bem ou do mal, porque, afinal, como um bom cristão, ele vai ajudar os feridos do campo, independente de que lado da batalha eles estão.

Gibson constrói tudo com delicadeza e habilidade. O afeto pelo personagem, um homem ligado à família, à suas crenças e valores; que encontra uma esposa perfeita, e arrisca isso pelo “dever” com o país, ou seja, pela compaixão com o outro; a dinâmica com os colegas do exército, que inclui muito humor, forçando a simpatia com os coadjuvantes (o soldado Hollywood fazendo o treinamento do exército pelado, por exemplo, é hilário); a resistência das forças armadas em aceitar alguém diferente dos padrões, que ousa quebrar regras; e, por fim, o momento de ação do herói, quando ele deve provar aos colegas e ao público o seu valor, que resulta em um clímax alucinante.

O protagonista é baseado em um personagem real. O verdadeiro Desmond Doss realmente salvou quase uma centena de soldados e foi o primeiro membro com objeção de consciência (que possui crenças incompatíveis com o serviço militar) a ser condecorado pelo exército. Se a história na vida real já é de uma grandeza ímpar, Gibson amplifica ela com louvor aqui. Um filme intenso, divertido e quase catártico, Até O Último Homem pode até pecar por idealizar demais o seu personagem, mas às vezes histórias de coragem como essa são necessárias – ainda mais quando são tão bem contadas.

| Gabriel Fabri