O Predador – Crítica

Assistir hoje ao primeiro O Predador (1987), longa-metragem de John McTiernan, é um exercício de paciência, além de uma experiência antropológica. Sucesso na época de seu lançamento, a história de soldados que se vêem acossados por uma estranha criatura, em uma missão no meio da selva, envelheceu mal, e o herói anabolizado interpretado por Arnold Schwarzenegger passa longe de ser uma figura cativante. O monstro, por outro lado, sobreviveu a uma série de remakes, e agora pretende estrelar uma nova trilogia. O Predador, de Shane Black (Dois Caras Legais), dá o ponta-pé inicial nessa empreitada.

O começo do filme traz, de cara, os elementos principais do primeiro, ao colocar um grupo de soldados na selva para uma operação de resgate. Entretanto, tudo dá errado quando uma nave cai na região e apenas Quinn (Boyd Holbrook) sobrevive para contar a história. Já prevendo que seria desacreditado e usado como bode-expiatório para justificar a morte de seus colegas, o franco-atirador rouba da nave caída a máscara do Predador, assim como um pedaço de sua armadura. Ele as envia para a sua casa, sem imaginar que estaria atraindo a criatura para o seu filho, Rory (Jacob Tremblay), um garoto autista. Para deter a ameaça alienígena, ele contará com uma equipe de ex-soldados afastados, e com a ajuda da cientista Casey (Olivia Munn).

Ao invés de simplesmente trocar o gênero dos personagens, como em Oito Mulheres e Um Segredo fez recentemente, a ideia de manter um elenco majoritariamente masculino – trata-se de um esquadrão do exército, afinal – e incluir uma mulher no meio, como uma outsider, funciona perfeitamente, e traz para o meio da ação a possibilidade de brincar e discutir os papeis e diferenças de gênero. Casey é a figura mais forte do grupo atrás do líder, papel que coube a Quinn, e tem sua importância como cientista e como soldado. Sua presença ali gera as mais diversas reações desse time de veteranos que não só não estão acostumados com uma presença feminina em combate, como também são esquisitos e desajeitados. A não idealização de toda a equipe, com a exceção do casal protagonista (que – surpresa! – não fazem um par amoroso), permite com que o humor surja naturalmente e não soe forçado ou uma obrigação do estúdio. A pérola é a cena em que a cientista conhece essa equipe, acordando em um quarto de hotel – a sequência é hilária, uma prova de que a força desse filme está nos personagens, e não no monstro.

Com muitas cenas de ação, O Predador só perde um pouco o encanto no clímax, quando se aproxima novamente do original e estende-se nas cenas de luta com a criatura. Entretanto, o filme tem um bom time de personagens para segurar o tranco, tendo ainda o garoto autista como peça importante na história. Além do mais, a cena final promete uma nova guinada para a série. Uma curiosidade: até o momento da publicação desse texto, o longa-metragem tinha pego no Brasil a classificação de 18 anos, pelas cenas de violência e, provavelmente, o linguajar que fala de sexo e inclui palavrões. O filme, entretanto, é voltado para adolescentes. Fica a reflexão de como o país vai, aos poucos, afundando nos moralismos conservadores.

Por Gabriel Fabri

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