Annette

Exibido no Festival de Cannes, Annette de Leos Carax é musical estranho com Marion Cotillard e Adam Driver

Após surpreender com o intrigante e surrealista Holy Motors, o projeto seguinte do francês Leos Carax chegou repleto de expectativa ao Festival de Cannes, de onde saiu premiado como Melhor Direção. Annette, com duas grandes estrelas no elenco, Adam Driver e a vencedora do Oscar Marion Cotillard, é um musical sobre o mundo da arte e sobre os vários sentidos que ser uma marionete pode ter.

Driver e Cotillard são um casal sob os holofotes da mídia. Ele é um comediante mal-humorado e um tanto sem graça, mas que por algum motivo lota suas apresentações; ela, por outro lado, é uma renomada cantora de ópera. Aqui já se vê o contraste entre a arte dita mais nobre, a música erudita, e a popular, representada pela comédia stand-up. O relacionamento começa a ruir com o nascimento da filha, Annette, representada por uma marionete.

O fato de Annette ser uma marionete é o mais intrigante no filme. Primeiro, ao ser o aspecto mais nítido que aproxima o musical de uma peça teatral, pois a licença poética de interpretar um boneco como sendo uma pessoa de verdade raramente cabe na ilusão de realidade do cinema – essa quebra do artifício cinematográfico acontece também de outros modos, como a cena do naufrágio, que lembra um palco de um teatro. Segundo, porque provoca a reflexão sobre o que é ser uma marionete, que está no cerne do filme, afinal, quando vivemos um amor, de que forma somos manipulados ou nos deixamos nos manipular pelo outro?

Leos Carax já havia usado uma música da banda Sparks em Holy Motors, e daí que surgiu a parceria para desenvolver nos cinemas o projeto da banda, que havia pensado na história originalmente para um álbum e uma turnê. Comparado com o anterior, Annette é um filme mais “quadrado”, sendo o seu elemento de maior estranheza o bebê interpretado por uma marionete. Mesmo assim, é um musical bastante peculiar, um tanto melancólico, em sintonia com as óperas mais trágicas e com os tempos em que vivemos.

Por Gabriel Fabri (@_gabrielfabri)
Jornalista, especializou-se em Cinema, Vídeo e TV pelo Centro Universitário Belas Artes. Colaborou com Revista PreviewRevista Fórum Em Cartaz. É autor de Fora do Comum – Os Melhores Filmes Estranhos e O Pato – Uma Distopia à Brasileira.
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