Santiago, Itália – Crítica

Os regimes autoritários que se instalaram no Cone Sul ao longo das décadas de 1960 e 1970 abriram feridas que ainda não foram cicatrizadas. Em virtude disso, um vasto material foi criado, tanto na academia quanto nas artes, abordando sobre vários ângulos as causas e consequências de tais ditaduras. O cineasta italiano Nanni Moretti, entretanto, propõe um olhar diferente: em Santiago, Itália, o foco está na solidariedade da embaixada italiana às vítimas da perseguição causada por Pinochet após o golpe de 1973, no Chile.

O que define o documentário é sem dúvida alguma a sua subjetividade e sua clareza ao assumir um posicionamento. A repulsa ao regime militar chileno e o afeto aos exilados são absolutamente claros. Além disso, a narrativa é composta basicamente pelos depoimentos dos personagens, o que torna o discurso muito mais autêntico e pessoal.

Há também espaço para a “versão” dos militares e agentes de repressão que cometeram crimes durante a ditadura de Pinochet. Porém o discurso deles, recheado de cinismo delirante e desesperado, tentando legitimar o golpe e o regime que se instalou a partir dele, acaba validando ainda mais os posicionamentos de Moretti. Talvez o momento mais memorável do filme seja quando um criminoso daquele governo se diz decepcionado, pois esperava imparcialidade de seu interlocutor, porém o documentarista afirma convicto “eu não sou imparcial”.

Apesar da subjetividade, o documentário dá todo o contexto histórico daquele período. Começamos acompanhando toda a euforia gerada pela vitória de Salvador Allende e a esperança que ela deu aos mais diversos setores da sociedade. Porém, logo somos atingidos pelas primeiras tensões e crises que culminariam no golpe. A exposição desse cenário e o fato dele ser apresentado basicamente pela narrativa de pessoas que presenciaram tais acontecimentos torna o filme ainda mais comovente.

Santiago, Itália é acima de tudo uma oportunidade que Nanni Moretti dá aos refugiados de dizer, muitas vezes com um italiano ainda débil, obrigado. Para nós, fica apenas o questionamento: quando nos tornamos tão indiferentes e onde foi parar nossa solidariedade?

Por Caio Simidzu

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