Curral (44ª Mostra Internacional de Cinema)

Curral, de Marcelo Brennand, integra a programação da 44ª Mostra Internacional de Cinema

No começo de Bacurau, longa-metragem de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles, vemos um prefeito voltando à cidadezinha, com toda a sua hipocrisia e psicotrópicos vencidos, apenas por conta da proximidade das eleições. Bacurau lembra muito a cidade de Gravatá, onde se desenrolam os acontecimentos de Curral, de Marcelo Brennand, No longa-metragem, que integra a programação da 44ª Mostra Internacional de Cinema, a região, entretanto, está dividida entre vermelhos e azuis.

Um plano geral da cidadezinha de Curral, onde todas as casas possuem uma bandeira ou vermelha ou azul, é uma clara alusão à polarização entre PT e PSDB, divisão que pode ser bastante relativizada depois das eleições de 2018 reconfigurar esse jogo político. Entretanto, sendo todos os habitantes retratados ali de baixa renda, a diferença entre os dois polos é difusa e nunca explicada: o longa-metragem foca, então, na suposta terceira via que surge na cidade, o partido de cor amarela, que se apresenta como o “novo”.

Por trás de Curral estão dois pontos importantes: primeiro, a falácia da terceira via, quando os políticos chegam com um discurso de inovação e de nova política, mas por trás não têm nada a oferecer de diferente dos vermelhos e azuis – é o caso do candidato a vereador Joel (Rodrigo Garcia), que promete abastecimento de água para a região, como se ele fosse, na verdade, candidato a prefeito. Depois, o sentimento geral de que políticos são todos iguais, discurso que abre as portas para os supostos outsiders, como Bolsonaro, assumirem o poder. Ao abordar o primeiro problema, sem diferenciação alguma entre as três cores, Curral acaba caindo justamente nesse discurso do senso comum, de que a política é suja, e que partidos A, B e C são todos iguais.

curral - bacurau - 44ª mostra internacional de cinema de são paulo - polarização política

Essa abordagem pessimista e calcada nesse senso comum, entretanto, é válida. O problema de Curral está, na verdade, no seu protagonista: Chico Caixa (Thomás Aquino), afinal, perdeu o emprego por levar água para a região, completamente desabastecida. Ele então assume a dianteira da campanha de Joel, acreditando que ele iria mudar as coisas: mas como ele acredita de fato nisso, se sua função número 1 ali é comprar votos durante a campanha de rua, negociando com empregos e com as verbas do comitê? Se ele é tão adepto da realpolitik, porque se surpreende quando o vereador faz alianças? Afinal, como poderia um vereador prometer algo grande sem uma aliança com um prefeito que o endosse? Caixa transita, sem convencer, entre a ingenuidade e a esperteza política. Por fim, ficam outros questionamentos: se aquela região é tão polarizada, ao ponto de se colocar bandeiras nas casas, uma desafiando a outra, como uma terceira via tem tanta adesão? E, ainda, sem uma sabotagem sequer de campanhas adversárias?

Curral, embora capte o sentimento de desilusão com a política e retrate práticas comuns nos rincões do Brasil de compras de votos e campanhas sujas, não surpreende. Falta algo a mais no longa-metragem, cujo protagonista não convence, e o enredo deixa a desejar.

Por Gabriel Fabri

Assista ao filme acessando o Mostra Play clicando aqui. Assista ao trailer do filme abaixo:

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