Inocência Roubada – Crítica

O fato de movimentos, formados principalmente por mulheres, começarem a denunciar os abusos e assédios dentro da indústria cinematográfica, provavelmente acabou também por possibilitar filmes com narrativas que buscam refletir sobre crimes dessa natureza. É dentro desse contexto que surge Inocência Roubada, longa baseado em um texto de teatro autobiográfico de Andrea Bescond, que também escreve, dirige e protagoniza o filme.

Comparações com O Conto, lançamento da HBO que parte de uma premissa muito semelhante, são inevitáveis. Ambas são realizações autobiográficas, que têm mulheres adultas rememorando situações de abuso sofridas na infância. Porém, no longa-metragem de 2018 há uma sutileza, gerada principalmente pelo fato da protagonista estar reconstruindo, a partir de textos, suas memórias de um passado obscuro. Aqui, em Inocência Roubada, não existem dúvidas, mas sim um crime e as cicatrizes por ele deixadas.

O ponto de partida do filme se dá quando Odette, a protagonista, procura uma psicóloga e revela as violências sofridas por ela na infância. As cenas que se constroem a partir das recordações, principalmente na primeira metade do longa, são brilhantemente executadas, nos apresentando episódios do passado, seguidos por intervenções das duas personagens no tempo presente. Isso cria no espectador uma sensação de imersão e emersão, nos agredindo com a subjetividade da memória, para depois nos fazer raciocinar na segurança e com a objetividade do corrente.

Porém a reconstrução do passado tem como objetivo principal mostrar as consequências que o trauma gera em uma pessoa. Conforme Odette entra na vida adulta, começa a se tornar instável e autodestrutiva. Questões como a dificuldade de se relacionar e até mesmo a dependência química, nada mais são do que sintomas da instabilidade emocional gerada pelos abusos da infância.

Algo que também compartilhado com O Conto, quando juntamos os principais elementos de Inocência Roubada, vemos que o longa se trata de uma jornada, que parte da superação até o enfrentamento, e é essa a maior importância do filme: nos lembrar que, apenas para iniciarmos a luta contra uma opressão, muitas vezes é necessário já termos várias vitórias de batalhas travadas dentro de nós mesmos.

Por Caio Ramos Shimizu

Confira o trailer de Inocência Roubada clicando aqui.