Anna Muylaert: “‘Mãe só há uma’ é um filme para falar de liberdade”

Inspirado livremente no caso do menino Pedrinho, sequestrado quando bebê e encontrado em 2002 pelos pais biológicos, aos 16 anos, o longa-metragem Mãe Só Há Uma chega aos cinemas nesta quinta-feira (dia 21), acrescentando na história original uma discussão de gênero: na trama, Pierre (Naomi Nero) passa por um momento de construção de sua identidade e de autodescoberta quando é surpreendido pela notícia de que sua mãe, Aracy (Dani Nefussi), o roubou na maternidade. A obra foi premiada no Festival de Berlim de 2016, na categoria Melhor Filme Queer do júri da revista alemã Männer, dentro do Teddy Bear Award, premio voltado a produções com temática LGBT.

A direção é da cineasta paulista Anna Muylaert, homenageada no 11º Festival de Cinema Latino-Americano de São Paulo, que acontece entre 20 e 27 de julho. Em entrevista ao Pop with Popcorn, a diretora comparou o novo filme com Que Horas Ela Volta?, que trazia Regina Casé no papel de uma empregada doméstica que reencontra com a filha Jéssica (Camila Márdila) quando esta vem para São Paulo para prestar vestibular.

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Foto: Gleeson Paulino

“Eu acho esse filme menos nacional e mais global”, afirma Anna. Para a cineasta, as questões sobre gênero e maternidade de Mãe só há uma são assuntos do mundo inteiro, enquanto o outro trazia uma discussão mais brasileira. “É um filme para falar de liberdade”, pontua. “No caso do Que Horas Ela Volta? era uma liberdade social, e aqui é uma liberdade de gênero ou de individuação mesmo, de que cada um pode ser o que quiser ser, seja qual estranho for”. A cineasta também compara a personagem de Jéssica com Pierre. “No primeiro caso, ela pode sair de casa, daquelas regras. O Pierre não, ele é menor de idade, então a maneira de ele sair é sair do armário”. Ela acredita que, no fundo, os dois filmes falam sobre regras, só que distintas: um sobre separatismo social e o outro sobre regras de gênero.

Após 20 anos sem frequentar a noite paulistana, Anna Muylaert encontrou um novo cenário, com “fluidez de gênero”, e resolveu incorporá-lo à trama de Mãe só há uma. “É uma geração que não precisa de rótulos, como a minha precisava”, explica. “Eu quis deixar o personagem mais contemporâneo, porque eu acho também que é uma questão de identidade, está dentro do tema do filme”.

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Um processo de introspecção

Para Naomi Nero, ator estreante em longas-metragens, a maior importância de seu personagem para a discussão de gênero tem a ver com a questão da normalização da experiência de descoberta. “Nenhum momento do filme o Pierre é definido. Ele não fala sou homem sou mulher, sou isso ou aquilo”, explica. Para o ator, a falta de rótulos do personagem traz muitas possibilidades, com relação não só à sexualidade, mas também à personalidade. “Todo mundo deveria ter essa liberdade de se experimentar e se conhecer que o Pierre busca”, conclui.

Para construir o personagem, Naomi tentou encontrar dentro de si mesmo as semelhanças que tinha com Pierre. “Foi um processo de introspecção muito grande, pois eu sou bem expansivo e tenho uma energia bem diferente da dele”, explica. O ponto de partida foi a questão da adolescência. “Assim como grande parte das pessoas nessa fase, eu estava passando por um momento de experimentação não só sexual, mas de identidade mesmo”. Outro aspecto foi o do sentimento de raiva, com o qual o ator se identificou. “É parecido comigo, mas de uma forma mais delicada. Ele tem uma explosão introspectiva”.

O sentimento de amor pela mãe sequestradora e o de rejeição pela mãe biológica, que o reencontra depois de 16 anos, foi construído por Naomi em conjunto com Dani Nefussi, que interpretou as duas matriarcas: Aracy e Glória, respectivamente. “A estética, a ambientação das casas das duas, tudo isso ajudou muito, porque eu olhava para uma mãe e não via a outra. Era uma energia completamente diferente”, explica Naomi.

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Todas as mães do mundo

Dani conta que construiu as suas personagens a partir da semelhança entre as duas: a paixão de mãe pelo menino. “Eu parti do amor! Amor de mãe é amor de mãe”, pontua a atriz. “Elas vão se expressar de formas diferentes. Tem uma que é egoísta, outra que abandona, tem um monte. Todas as mães do mundo. Mas tem uma coisa que é universal, que é o afeto pelo filho, a paixão por aquilo que você gerou”. Por isso, ela diz considerar “o máximo” a decisão de Anna Muylaert de escalá-la para interpretar não uma, mas as duas personagens. “Mãe só há uma”, sintetiza.

Para Dani, foi como trabalhar em dois filmes diferentes, só que olhando para um mesmo filho. A própria divisão das filmagens contribuiu com essa sensação: em uma semana, Dani e Naomi gravaram as cenas de Aracy, a mãe sequestradora. Depois de um intervalo de mais uma cena, Dani retornou ao set como Glória. “O pouco que a gente pode experimentar antes de gravar, o Naomi já olhou para mim e disse: não, você não é minha mãe”, explica. Ao atuar como a mãe biológica, tudo estava diferente. “Cheguei apaixonada do mesmo jeito, só que em outra estrutura, com marido, com outro filho, em outro ambiente. É um trabalho muito pautado por ambientação”.

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A atriz confessa que interpretar a sequestradora foi mais fácil. “A mãe biológica tem que ser muito mais contida, mas ela vive com uma espera de 16 anos. Como você lida com esse vazio ao longo do tempo, era o mais difícil”, afirma. “Então, fomos construindo esse tempo de sofrimento”. Para duas cenas em particular, a do primeiro encontro com Pierre, no restaurante, e a da festa em família, a atriz interpretou pensando em uma mulher que se apaixona por um homem. “A mulher perdeu um bebê e ele chega um homem. Então eu fui por um sentimento de mulher”, explica. “Na festa, eu falei: ‘Naomi, se segura porque eu vou te seduzir’” (risos).

Essa paixão, porém, é complexa. “Imagina você encontrar um cara pelo qual você já é apaixonada sem ter sequer conhecido?”, indaga. “Essa mãe não tem intimidade com ele, mas ao mesmo tempo o ama mais do que tudo. Ela se apaixona como mulher por ele”. A personagem, entretanto, tem a sua moral, e os anos nutrindo expectativa por ele, o que provoca um choque de realidade nela e no resto da família. Além disso, ela precisa jogar conforme as regras do jogo. “Você está louca para abraçar e agarrar o seu filho e não pode, porque ele já tem 16 anos e vai enlouquecer assim”, explica. “Então tem todo um sentimento de o que é melhor para o meu filho – e o melhor é não expressar esse amor”.

| Gabriel Fabri

Revisão: Maria Eugênia Ferreira